Não há coisa mais bizarra do que ver alguém alegar, em sua própria defesa, que foi ingénuo e incompetente.

 

Os bancos felizes são todos iguais; os bancos infelizes são-no cada um à sua maneira. Não há duas histórias iguais. E esta é a pergunta que, em cada caso, toda a gente se faz: é crise ou crime?

 

Em certos casos — e penso no Banco Privado Português — parece ser crise. Os fundos de acções que o banco possuía valem hoje muito menos do que valiam, perdeu-se muito dinheiro no processo, e a contracção do crédito faz com que seja muito difícil suavizar as perdas.

 

Noutros casos — e pensamos todos no Banco Português de Negócios — a cautela manda dizer que não sabemos. Mas parece mais crime do que crise. A utilização de contas em paraísos fiscais para esconder perdas de dinheiro, a compra de empresas falidas em ilhas exóticas, uma administração que nem sequer se reúne como é sua obrigação legal — tudo isto tem pouco a ver com a crise, a não ser no sentido daquele velho aforisma segundo o qual “quando a maré baixa na praia é que se vê quem estava nu e quem tinha calções”.

 

Isto para quem vê as coisas de fora. E para quem estava lá dentro enquanto tudo aquilo — que visto de fora parece fraude e gestão danosa — sucedia?

 

***

 

Não há coisa mais bizarra do que ver alguém alegar, em sua própria defesa, que foi ingénuo e incompetente. Mais ainda quando se trata de um político e homem de negócios. O que um antigo governante traz à administração de um banco é a sua argúcia, perspicácia e capacidade de raciocínio. É esse o seu principal capital — ou isso, ou a sua agenda de contactos. E só em último caso um profissional admite um rombo nesse capital de competência.

 

A entrevista de Manuel Dias Loureiro, administrador da sociedade proprietária do BPN até há uns anos atrás, foi um momento perturbante nestes termos: se ele confessa com à-vontade que não viu um banco desmanchar-se à sua volta é porque a alternativa é sempre pior. Dias depois sabia-se qual era a alternativa. O vice-governador do Banco de Portugal António Marta, a quem Dias Loureiro alega que pediu uma “atenção especial” para o BPN, emitiu uma declaração segundo a qual essa “atenção especial” pedida fora no sentido de não se andar tanto “em cima” do BPN. Ou seja, segundo António Marta, Dias Loureiro desejava que se vigiasse menos (e não mais) aquele estranho caso de gestão bancária. Não há como sair disto: ou Dias Loureiro foi ingénuo e incompetente (a hipótese boa) ou mentiu (a hipótese má).

 

Vamos, é claro, pela hipótese boa. A pergunta seguinte é esta: se você fosse dono ou accionista de um banco, confiaria o seu conselho de administração a alguém que faz esta descrição do seu próprio trabalho? Em caso negativo, como podemos esperar que se lhe confie o Conselho de Estado? Essa é a outra pergunta seguinte, e dirige-se ao Presidente da República, que o nomeou.

 

A partir daqui, as coisas evoluem rapidamente. O Presidente declara que não pode demitir um conselheiro de Estado, o que é um convite transparente a que ele renuncie. O conselheiro não entende as coisas assim, e corre a Belém para afirmar a sua inocência, o que obriga o PR a reafirmar-lhe a sua confiança.

 

Tradução: Cavaco Silva gostaria que Dias Loureiro o libertasse amistosamente deste assunto desagradável. Ao invés disso, Dias Loureiro utilizou Cavaco Silva como tábua de salvação. E ser tábua de salvação é muito desconfortável.

 

 

[do Público]

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