[Público 20 setembro 2007]

Perfilham portanto dessa curiosa doutrina, muito em voga entre a direita europeia após a eleição de Sarkozy, segundo a qual a economia do país é um reflexo dos estados de alma dos “líderes”.

Antes que chegue o fim-de-semana com a habitual crónica de Vasco Pulido Valente declarando que nenhum dos candidatos a líder do PSD tem “uma ideia para o país”, vou antecipar-me: vi pela televisão o debate entre Marques Mendes e Luís Filipe Menezes e comentar aquilo é mais insípido do que narrar o relevo dos Países Baixos. Não há ali nada que se destaque, por muito que desejemos ver ao menos uma colina. E decerto ninguém se entristecerá mais com isso do que os simpatizantes do PSD, a quem estas breves reflexões vão dedicadas.

Não é que Marques Mendes e Luís Filipe Menezes sejam idênticos. Mendes é mais previsível e Menezes mais irrequieto. Ambos têm ínfimas possibilidades de ganhar eleições legislativas, e a Menezes soma-se o estigma de ser um novo Santana Lopes. Eles não são iguais. Contudo, na medida em que só podem esperar que o governo tropece, são igualmente irrelevantes.

O debate foi espelho disso. Nas curtas mas obrigatórias fantasias sobre o país, oscilaram entre o “não me resigno” e o “quero a economia a crescer a três por cento”. Perfilham portanto dessa curiosa doutrina segundo a qual a economia do país é um reflexo dos estados de alma dos “líderes”. Muito em voga entre a direita europeia após a eleição de Sarkozy, ela serve sobretudo para baralhar o esgotamento da doutrina ainda dominante, segundo a qual é necessário dar cada vez mais poder às empresas para que o bem estar económico se difunda, por capilaridade, à sociedade inteira.

Acusações de populismo são hoje em dia moeda corrente entre políticos, o que tem gradualmente vindo a retirar qualquer significado ao termo. O problema com esta doutrina, chamemos-lhe assim, “carismastico-empresarialista” não é apenas o seu lado demagógico: é a passagem do tempo. Nunca pinga nada para os pobres, e agora nem para a classe média. As pessoas cansaram-se de esperar; estão vencidas sem ser convencidas. Uma parte grande da população ressente-se mais do excesso de poder das empresas do que da acção do estado. A ideia de que as empresas são por definição mais eficientes também tem levado uma grande sova de realidade. A empresarialização das funções municipais cheira a corrupção, e por aí adiante.

Um dos problemas do PSD é ter de vender esta doutrina numa época em que ela é simultaneamente impopular e foi pragmaticamente tomada pelo actual governo do PS. Marques Mendes ainda pouco mais é do que um porta-voz das teses do “Compromisso Portugal”, mas é forçado a contradizer-se para poder fazer oposição dizendo que a sua doutrina não é para valer em certas áreas, ou que não é para aplicar no interior do país, implicitamente admitindo que ela é danosa. Menezes oscila entre promessas de ser mais “social” e ser mais “liberal”, sem ficar claro se a sua instabilidade é genuína ou somente oportunista. Mas os dois tentam uma síntese ideológica de que as pessoas desconfiam. E nenhum deles pensou ainda em nada de melhor para dizer, ou desconfia que tem de o fazer.

Para pensar em coisas novas para tempos novos é preciso, por desagradável que isto pareça, gente que esteja disposta a pensar. E mais do que populista, o PSD sempre teve uma forte tendência anti-intelectual. Os seus intelectuais de origem desinteressaram-se do partido. A outra parte é de ex-esquerdistas cujo contributo muito limitado ao anti-esquerdismo é bastante estéril. O que resta são pragmáticos de carreira do estilo “Compromisso Portugal”. Nenhuma destas estirpes parece ter vontade ou coragem para dizer ao PSD que enquanto não pensar no que tem para dizer, ninguém lhe dará ouvidos.

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