[Público 9 maio 2007]

Muitos patrões franceses preferem deixar uma vaga por preencher do que contratar árabes ou negros. Depois de não os contratar, é só pedir a Sarkozy que venha metê-los na ordem.

Vejo que, no Público de ontem, Helena Matos atribui a vitória de Sarkozy ao momento em que este chamou “escumalha” (racaille) aos jovens negros e árabes dos subúrbios parisienses. Vejo também que Helena Matos acha que só as “cabecinhas bem-pensantes” se escandalizaram. O que nos leva à questão: é esta a mesma Helena Matos que esteve na primeira linha do escândalo quando o ministro Augusto Santos Silva disse que se fazia “jornalismo de sarjeta” em Portugal?

Bem vejo, há uma diferença! Sarkozy apenas chamou “escumalha” a “quem se porta como tal”. Mas Augusto Santos Silva também se referia apenas aos maus jornalistas e não aos bons. Talvez Helena Matos tenha então achado que a distinção era irrelevante, porque estes insultos dirigidos ostensivamente às ovelhas negras se destinam em geral a coagir todo o rebanho, a estigmatizá-lo e retirar-lhe liberdade. Eu concordo que assim é. E também me reservo o direito de achar escandaloso.

O preconceito é assimétrico. Para a maioria nunca é um tema assim tão importante.


Quando a minoria somos nós, a coisa é diferente. Não há nada que não tenha sido contaminado. Os jovens da banlieue não entraram em combustão espontânea. A coisa começou com a morte de dois deles no seguimento de uma perseguição policial. E não acabou enquanto Sarkozy não espremeu o espectáculo da repressão até à última. Toda a imprensa internacional notou então o prolongamento propositado do conflito. Que apenas as “cabecinhas bem-pensantes” achem isto uma forma indesejável de campanha eleitoral diz muito sobre o nível a que agora desceu a fasquia.

Na altura dos motins foram bem divulgadas as pesquisas oficiais sobre a prevalência do racismo latente. O mesmo CV tem três vezes mais hipóteses de ser aceite quando o nome é Jean-Claude Dupont em vez de, digamos, Ibrahim Yassin. Muitos patrões franceses preferem deixar uma vaga por preencher do que contratar árabes ou negros. Depois de não os contratar, é só pedir a Sarkozy que venha metê-los na ordem. A direita exige respeito ao estado. Pois bem, a esquerda exige também que nos deixem respeitar os outros. Onde estava o respeito que o estado devia a estes jovens franceses, cujos pais ajudaram a construir a França?

Sarkozy achou que o racismo latente poderia ser reconvertido em votos e ganhou. Ao contrário do que supõe Helena Matos, não foram as vítimas da criminalidade que correram para os seus braços: em Paris e nos subúrbios os votos em Sarkozy foram abaixo da média, ao contrário de zonas onde a criminalidade é baixa, como a Sabóia, o antigo Franche-Comté e, em parte, a Alsácia. Aqui Sarkozy teve votos acima da média porque a direita francesa está naturalmente enamorada por um proteccionista, nacionalista e cultor da lei e da ordem, ao qual não se ouve uma palavra sobre a liberdade que não seja a liberdade de trabalhar mais ou ser despedido facilmente.

Já mais curioso é ver que a direita internacional também o adora. A mesma direita que não perdoou que Chirac tivesse razão na Guerra do Iraque ama Sarkozy porque ele teria sacrificado alguns jovens para evitar que as petrolíferas francesas fossem “castigadas”, como aconselhou Condoleezza Rice a George Bush. A direita que reclamou o referendo europeu está feliz por Sarkozy ter arranjado um truque para que a Constituição não vá a votos. A direita que vê o nazismo na lei do tabaco não encontra nada de mal na estética do líder autoritário, duro e carismático. Pensando bem, aliás, só pode mesmo ser por uma questão de estética.

3 thoughts to “A estética da “escumalha”

  • Sérgio

    Excelente análise. É importante desconstruir essas crónicas grossas repletas de preconceitos e de desonestidade intelectual.

  • Silent Poet

    Ter como oponente a Helena Matos é uma vantagem muito grande. É que a ela até o rato mickey ganha!

  • Bacalhau Sardinha Assada

    De facto, tao simplista estas frases da helena de matos…

    é verdade que ouvir um numero 2 do governo a falar como um borrachao num café as vezes surpreende mas em fim. Estas palavras estigmatizam ainda mais uma populaçao em dificulade, so os deficientes sao mais discriminados no accesso ao emprego.

    Um problema bem mais complexo do que a maioria da gente pensa.

    Em relaçao à eleiçao de Sarkozy, a diferença foi no valor “trabalho”. Nas categorias dos comerciantes y artesoes, Sarkozy faz 82% ! Nos agricultores 65% . Nos mais de 60 anos: 65 %. A diferença esteve ai. Reduzir a vitoria ao racaille é uma estupidez !

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