Salvem os ricos

Enquanto a economia crescia, foi-lhes dito que os benefícios não eram para eles. Era preciso manter a competitividade.

 

Respirem fundo enquanto ainda conseguirmos encontrar piada nisto. Em Portugal, o programa de humor “Os Contemporâneos” lançou uma paródia às canções de natal que juntam artistas solidários e chamou-lhe “Salvem os Ricos”. Os jovens portugueses, que ganham 500 euros a recibo verde e não podem arriscar adoecer, exteriorizam pelo humor o espanto de ver o Estado ajudar bancos com o dinheiro que supostamente não havia para universidades, jardins ou transportes públicos.

Olhando para os jovens gregos, porém, fica claro que basta um pequeno rastilho para a situação perder a graça. Diz-se que esta é a primeira revolta da geração precária. Talvez seja a segunda: nos motins dos subúrbios franceses foi fácil disfarçar a coisa com uma conversa sobre os filhos dos imigrantes, o multiculturalismo e o “politicamente correcto” — a tralha do costume. Agora que se trata de jovens gregos de gema já não dá para disfarçar. Fica claro que nesta Europa de “primeiro mundo” há muita gente — jovem ou menos jovem, imigrante ou nativo, desempregado ou precário — que se sente fora do contrato social. Em Portugal, acrescentemos-lhe ainda os idosos e os pobres, o interior e os subúrbios.

É muita gente do lado de fora. Enquanto a economia crescia, foi-lhes dito que os benefícios não eram para eles. Era preciso manter a competitividade. Agora — quando a economia recede — dizem-lhes que é preciso salvar o sistema financeiro para evitar o pior. E, se querem mesmo saber, não deixa de ser verdade. Mas não nos digam que a história acaba aqui. Daqui para a frente, vai ser preciso tratar da sociedade antes de tratar do “mercado”.

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Não precisamos do exemplo grego para saber que uma crise pode desembocar em coisas muito feias. Nos anos 30, com a ajuda da Grande Depressão, grande parte do mundo vivia sob ditaduras e acabou numa guerra mundial.

Um historiador deve sempre notar que as comparações com outras épocas — mesmo as simplificadas como esta — são apenas para usar e nunca para abusar. Desta quero apenas extrair um ensinamento: a irresponsabilidade dos políticos, a ditadura e a guerra não foram o único caminho. De formas diferentes — com Roosevelt nos EUA, a Frente Popular em França, a Social-Democracia na Escandinávia e (sim) o conservadorismo de Churchill em Inglaterra — houve quem conseguisse refazer o Contrato Social de forma a incluir toda a gente, não desperdiçar capacidade produtiva e relançar os alicerces do futuro para os seus países.

O que estes líderes tinham em comum era a coragem. Mas a principal coragem que eles tiveram foi a coragem de ir contra os seus próprios hábitos, superar rivalidades antigas e desmanchar as ideias feitas.

Hoje vivemos numa situação muito diferente, muito mais próspera e confortável, com uma população mais informada e um mundo mais interligado. Estamos longe do desespero dos anos 30, mas há algo que podemos aprender com as pessoas que nesse tempo tentaram salvar o mundo da barbárie: a vontade de superar os papéis que nos estão atribuídos. Em Espanha, 1936, até os anarquistas aceitaram entrar no governo, e logo com a primeira mulher ministra no país — Federica Montseny. É algo que talvez os “anarquistas” gregos de hoje desconheçam. Mas sei que assustou muito mais os fascistas do que qualquer montra partida.

 

[do Público]

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