Porque estamos bloqueados?

 

Courage – Bordachev.

É hoje evidente que só há duas maneiras de os partidos mudarem: ou com um revolta interna dos seus militantes, que leve a uma profunda reforma democrática dos partidos, ou com criação de novos partidos que funcionem segundo regras diferentes, levando os partidos antigos a acompanhar a evolução para não ficarem para trás.

1. Bloqueia-nos um debate de fraca qualidade em relação à presente crise, nos seus aspectos nacionais e europeus. De um lado temos os políticos e partidos tradicionais, ainda agarrados à figura do “bom aluno” europeu, proclamando que é necessário implementar tudo o que nos é sugerido, faça ou não sentido, para ficar bem na fotografia; do outro lado, uma crescente atitude de isolacionismo, frequentemente eivada de tons dramáticos, proclamando que a Europa morreu e que é preciso enterrá-la. Para o primeiro desses campos, “mais Europa” é sempre a solução; para o segundo, “adeus Europa” é a única solução.

Pois bem; é preciso lembrar que “mais Europa” não significa nada, e “adeus Europa” também não significa nada. Mais justiça significa alguma coisa, mais liberdade significa alguma coisa, mais democracia significa alguma coisa, mais desenvolvimento significa alguma coisa, mais solidariedade significa alguma coisa. A partir do momento em que entendemosque a nossa obrigação, enquanto comunidade política, é lutar por estes valores, o programa político começa a ficar mais claro: o nosso objetivo é conquistar justiça e liberdade em Portugal e na Europa; desenvolvimento e solidariedade em Portugal e na Europa; democracia em Portugal e na Europa.

Lutar por essas conquistas em Portugal não é contraditório com lutar por elas na Europa, nem vice-versa.

2. Bloqueia-nos uma política em que os bons debates não conseguem florescer. E aqui é necessário por o dedo na ferida: o problema não está nos partidos, mas está certamente naquilo a que se tem chamado partidismo, ou partidocracia. Incorretamente, aliás, pois o que se passa não é que tenhamos chegado a um regime de “poder pelos partidos”, mas antes a um regime em que as direções partidárias se limitam a administrar a sua impotência, fechadas sobre si mesmas, inacessíveis até aos seus militantes, cuidando do nicho de mercado que disputam com as outras direções partidárias: a gestão da frustração do eleitor que ainda vai votando, descontando portanto os abstencionistas e os que emigraram.

Esta situação não mudará pela sua própria dinâmica. É hoje evidente que só há duas maneiras de os partidos mudarem: ou com um revolta interna dos seus militantes, que leve a uma profunda reforma democrática dos partidos, ou com criação denovos partidos que funcionem segundo regras diferentes, levando os partidos antigos a acompanhar a evolução para não ficarem para trás. O bloqueio é tal que todas as tentativas de sair dele envolvem riscos.

3. E esse é o outro problema. Estamos bloqueados por uma cultura do medo, da vergonha, do conformismo. Uma cultura na qual destruir é mais fácil do que construir.

Resta-nos assim fazer alguma coisa, desde que essa alguma coisa não mude nada. E, nesse domínio, podemos dizer quefizemos tudo. Assinámos petições, fomos a manifestações, incentivámos indignações — tudo com pouco resultado. Isso também explica a nossa depressão. Quem não estaria deprimido se tivesse tentado tudo aquilo para que tinha coragem e nada tivesse dado certo?

A resposta para isso não é fácil, mas só consigo vislumbrar uma: é preciso ir buscar coragem à imaginação.

(Crónica publicada no jornal Público em 30 de Outubro de 2013)

8 Respostas a “Porque estamos bloqueados?”


  • Se fundar um novo partido, serei militante.

  • Caro Rui:
    Vamos a eles.

  • “Lutar por essas conquistas em Portugal não é contraditório com lutar por elas na Europa”
    Talvez não, mas lutar por elas em Portugal e na Alemanha pode ser contraditório. Duvido que a Alemanha aceite alguma vez a mudança na disparatada arquitetura do Euro. Nesse caso, qual a solução? Lutar eternamente, até à derrota final?

  • A criação de um novo partido político, com outra praxis e vontade de mudar o sistema, é o input que, na minha opinião, irá levar os restantes partidos a abandonarem e a alterarem velhas lógicas e procedimentos. O “centrão”, essa poçilga que não constitui nem permite uma alternativa mas apenas um mera alternância entre os mesmos de sempre que nos trouxeram até à desgraça em que nos encontramos, tem que ser confrontado com uma nova dinâmica e um novo desafio. Subscreverei este novo partido e votarei nele, embora confesse ter um receio quanto ao resultado das próximas legislativas. É que com esta divisão dos votos à Esquerda, o Tó Zé deixa de ter a maioria simples no papo, a qual poderá voltar a ser do PSD caso este novo partido do Rui Tavares também não a consiga. O risco que nós corremos é, pois, o de voltar a ter a Direita no poder por via de uma maior fragmentação dos votos à Esquerda. Relembro a profecia de Manuel Alegre no dia em que perdeu as presidenciais para Cavaco Silva. Quando perguntado pelo jornalista sobre as razões da sua derrota, respondeu: “À Direita, o unanimismo e a unidade de sempre. À Esquerda, a criatividade e a pluralidade ideológica que é a nossa maior riqueza cultural, mas é também, simultâneamente, a nossa maior desgraça”.

  • Caro José Esteves Pereira.
    Esse é o meu dilema e reserva à criação de um novo partido. Na verdade, quando o BE conseguiu o maior numero de deputados à Assembleia da Republica pensei ser possivel um dialogo à esquerda que congregasse o PS e o Bloco. No entanto na mesma noite em que o Bloco encontrou a sua vitória perdeu-a no momento seguinte,quando Francisco Louça disse que o PS era o “alvo a abater” e que não poderia haver lugar a alianças com tal partido. Hoje não sou militante de nenhum partido. Já fui. Mas qual a opção?Para ser sincero o meu voto tem sido no PS, porque apenas entendo que é o mal menor. Não votar é sempre dar votos à direita. Essa é a questão que se nos coloca, militantes politicos de esquerda que perderam espaço no espectro politico, restando-lhes a esperança de encontrar uma forma de repor a esquerda democratica, europeia e sem grilhões. Nos movimentos que por aí surgem também não confio. Movimentos que apenas apelam ao voto contra os partidos e contra os politicos. Quem é que está por trás desses movimentos? Um chefe? Eu não gosto de Chefes.

  • “Esse é o meu dilema e reserva à criação de um novo partido” (António Amen)
    Uma eventual divisão entre forças de esquerda, ainda que imaginável, não só não pode ser preocupação para quem pensa numa nova formação partidária, como também existem formas de propiciar a convergência, apesar das diferenças organizativas e divergências ideológicas.
    Há quem lamente os exageros provocados pelo esmero ideológico, mas eu penso que, tal como a “mais democracia”, também a mais ideologia pode ser um factor a contribuir para uma solução.
    A cada concepção ideológica deve corresponder uma formação partidária, que faça a propaganda do seu ideário, sem que essa riqueza da diferença tenha que se constituir como fonte de divisão. Tão importante como as diferenças ideológicas são as alianças que têm que se construir, mediante plataformas acordadas com toda a transparência e frontalidade.
    Uma organização partidária séria não pode constituir-se só com o propósito de concorrer a um ou mais actos eleitorais. Nem pode ser motivo de ponderação, sobre se deve constituir-se ou não, a eventual dispersão de votos que poderia vir a causar, até porque há formas de a evitar com acordos pré e pós eleitorais. Ou há um projecto de sociedade para um futuro em que se acredita, ainda que distante no tempo, ou então, para arranjos de circunstância, não vale a pena.
    A diferenciação entre esquerda e direita já não faz sentido para muita gente. Acostumei-me a estabelecer uma diferença muito simples. Fiel ao slogan “A emancipação dos trabalhadores terá que ser obra dos próprios trabalhadores”, para mim as formações cuja acção se identifica com o ideário da esquerda são as que, de alguma maneira, contribuem para a organização dos trabalhadores. Sobretudo as formas de organização autónomas inclusivamente em relação aos partidos.
    Neste termo “trabalhadores” incluo não apenas os operários, ou os trabalhadores braçais, naquela perspectiva de há umas décadas atrás, mas sim no sentido mais literal do termo, ou seja, relativo a todos aqueles que trabalham.
    Se é para criar uma organização onde seja viva a democracia interna; se essa iniciativa proporcionar a organização autónoma e coordenada de indivíduos livres, para as mais diversas formas de participação na vida activa, não só política, mas social e económica (cooperativismo e economia social); se for para propor caminhos viáveis e concretos para nos desenvolvermos, de forma justa para com quem trabalha, e crescermos como nação, como membros da comunidade dos povos que falam português e como europeus… então vai valer a pena tentar, porque com estes propósitos parece não haver nenhum partido político em Portugal.
    2013-11-12
    Carlos

  • Estava tropa quando deu vinte cinco abril,pensei teria sido dia mais feliz da minha vida porque tinha participado na liberdade de um povo,passados tantos anos tenho voltar luta ,,,,
    Quero ser deste partido que vai mudar Portugal

  • O mundo evoluiu de tal maneira que a democracia partidária está desadequada. Os partidos cada vez mais lembram os regimes feudais do século XII, em que o poder é passado entre os membros da mesma família. O povo está cada vez mais informado e menos tolerante a estes partidos lobbystas. Precisamos de uma mudança na politica,, que não seja demasiado bolchevista, nem capitalista. Um partido feito de pessoas de verdadeiro mérito, interessados no bem comum e no desenvolvimento deste país que considero grandioso. Precisamos de uma democracia participativa, e corajosa.
    Admiro a coragem para resistir às piadas, aos dedos apontados, e aos risos incrédulos. Este país cresceu a partir de visionários que contrariaram o óbvio e vingaram.
    Não deves parar! Cria a meritocracia popular!

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