Há palavras a menos na política portuguesa

Sejamos honestos, Cavaco Silva se pudesse sufocaria estas eleições no berço porque, simplesmente, é o que lhe dá mais jeito.

Faltam palavras na política portuguesa. Por exemplo, palavras como “sonso”. E falta utilizar essas palavras quando Cavaco Silva, atual presidente da República e candidato à sua própria sucessão, diz que “há palavras a mais na nossa vida pública”.

Cavaco Silva está a matar, devagarinho, qualquer hipótese de termos uma campanha presidencial esclarecedora.

Fá-lo porque nunca entendeu o valor do confronto de ideias; Cavaco Silva não é, essencialmente, um pluralista. Sempre insistiu que duas pessoas confrontadas com os mesmos dados têm a mesma opinião. Isto significa que não entende porque têm os outros outra uma opinião diferente da dele; essa é uma realidade que ele aceita (se aceitar) a custo, e que portanto não se percebe como pode prezar. Adicionalmente, sempre atacou a retórica, ou seja, o lado público e discursivo da política, que é o alicerce da democracia. Não reconhece que a vida pública precisa de palavras a mais, todas diferentes, algumas erradas, para se aperfeiçoar.

Mas, sejamos honestos, Cavaco Silva se pudesse sufocaria estas eleições no berço porque, simplesmente, é o que lhe dá mais jeito. Com a mobilização a zero, não há surpresas; o ideal seria que ninguém reparasse que há eleições. Não haver cartazes nas rua é um bom começo, principalmente quando se tem a TV e os jornais todos os dias assim: “Cavaco defende previsibilidade”, “Presidente recomenda precaução”, “Cavaco Silva condecora empresários” Ui, que profundo.

Isto não é programa político nem plataforma eleitoral e, acima de tudo, é demasiado mau para ser verdade. E porquê? Porque uma eleição é um momento supremo de clarificação para uma sociedade; nós gastámos os nossos cartuchos já no ano passado e o país ainda precisa de saber o que lhe vai acontecer. O próximo presidente vai, talvez, dissolver o parlamento, assistir à entrada do FMI e ver a União Europeia desmanchar-se ou mudar.

Qualquer candidato que não fala claramente sobre estas coisas está a faltar às suas obrigações para com o eleitorado.

Na crónica da semana passada sobre a “austeridade”, cortando caracteres para que coubessem na coluna, acabei por suprimir um parágrafo. Dizia assim:

“Além disso, a Irlanda já fez todos estes cortes, e os mercados não a deixam em paz. É até a nossa principal esperança para ir à nossa frente no caminho da bancarrota Como os irlandeses já sofreram demasiado, não lhes desejo essa sorte.”

Hoje, estou arrependido. Deveria ter deixado essa frase e acrescentado que Portugal deveria ter um plano para quando isso acontecesse.

Infelizmente, como lembram no blogue de economistas “Ladrões de Bicicletas”, o único plano de Portugal é dizer que é diferente da Irlanda, tal como o único plano da Irlanda é pedir que não a confundam com a Grécia, e o plano da Espanha é explicar que nada tem a ver com os outros.

Têm razão no fundo. A Irlanda de sonho dos neoliberais tem pouco a ver com a Espanha superavitária de há dois anos, ou com a Grécia de contas fraudulentas, ou o nosso Portugal que tão bem conhecemos e nos aflige.

Mas estão errados na forma. A forma como o euro está feito prejudica todas as economias periféricas, e estas têm de se juntar para dizer isto mesmo. Não precisam de mais do que fazer uma reunião em qualquer das capitais e escrever uma declaração simples. Berlim e Paris não podem mandar sozinhas em prejuízo imediato dos outros, e ruína final de todos.

4 Respostas a “Há palavras a menos na política portuguesa”


  • “Qualquer candidato que não fala claramente sobre estas coisas está a faltar às suas obrigações para com o eleitorado.”

    “Não haver cartazes nas rua é um bom começo, principalmente quando se tem a TV e os jornais …”

    Espero que a próxima crónica explique porque é que o candidato Manuel Alegre se entretém a assumir poses de Estado e não faz nada para contrariar este estado de coisas.

  • Eu tamãe concordo: a rileissão tá no papo.

  • Ai… Ai… E continua… Aqui foi censura do tipo da dita “Primavera (Primavera outonal, claro)Marcelista” (Cavaco, “o Neo-Marcelista, parece-me um bom cognome). Nova tentativa para o post das 20h19 de 25 de Novembro:

    Ah!O Rui já tinha comentado o silêncio de Cavaco Silva no seu excelente artigo “Bingo!” Na altura, escrevi um comentário que, razões internéticas que não consigo diagnosticar, se perdeu algures na galáxia virtual. Reproduzo-o aqui por me parecer adequado:

    “E, já agora, o que pensa Cavaco sobre tudo o resto?
    Sobre o nosso coeficiente de Gini e as medidas para o melhorarmos, sobre os caminhos do Serviço Nacional de Saúde (incluindo décadas de eugenistas “numerus clausus” para se entrar em Medicina), sobre a possível privatização do mesmo, sobre o enquadramento legal – e sua racionalidade policial – da imigração de que, por todas as razões, Portugal tanto necessita…
    E também, sobre a necessidade de o famoso “rating” passar a ser feito pelo Banco Central Europeu – ou uma Agência Europeia Reguladora – e não por obscuras multinacionais anglo-saxónicas, cujos nomes denunciam eles próprios o seu programa ideológico (estou a pensar na Standard & Poor’s, p. ex. – em tradução livre, os Ricos & os Pobres)…

    Ah! Já agora, falando o “constitucionalês” da moda, e para o caso de acharem que é irrelevante saber o que pensa o PR sobre estas matérias porque ele é “decorativo”, o que acha Cavaco de uma Constituição que escolheu um sistema misto de governação, – expresso na legitimidade democrática directa de dois órgãos de soberania (a Assembleia da República e o Presidente da República) – e que, depois, não previu a participação (por vezes nem sequer a consulta) do segundo em tantos e tão relevantes processos decisórios. Exemplos?

    O Presidente não tem poderes para nomear uma quota de – deveriam ser dois – juízes do Tribunal Constitucional; não tem uma palavra de substância a dizer na nomeação do Provedor de Justiça; não participa na escolha das estruturas de “governance” das cada vez mais poderosas autoridades reguladoras independentes (da energia, das telecomunicações, do mercado de valores mobiliários, da comunicação social)…

    E, entre tantos outros exemplos, sabem o que mais? Nem o Parlamento, nem o Presidente têm uma palavra a dizer na nomeação do Governador ou do Conselho de Administração do Banco de Portugal, – mais uma coutada, sabe-se lá com que fundamento, desse órgão colegial iluminado (porém não-eleito) que é o Conselho de Ministros – já pensaram nisso?

    Parece-me que a moderna ciência política observa – e bem! – que a um sistema constitucional teoricamente “parlamentar-presidencial misto” (e não semi-presidencialista como o francês – a diferença não é semântica, pois entre outras competências, o PR francês preside ao Conselho de Ministros, interferindo directamente na actividade governativa) se substituiu um sistema que, na prática, é “de executivo”, com o Governo (órgão congenitamente mais tecnocrático do que democrático) a mandar muito mais do que os “pais fundadores” da nossa CRP haviam previsto…

    Para ser, porém, inteiramente justa, vou deixar, além destas, uma pergunta genuinamente difícil só para o Manuel Alegre:

    O que tenciona fazer, dentro da esfera da “diplomacia de influência” que sempre cabe a um Chefe-de-Estado, pelos refugiados do Saara Ocidental há tanto exilados na Argélia, e cujas vidas lhe trarão talvez à memória o tempo em que o fascismo português o obrigou a si a refugiar-se naquele mesmo país? Se as nossas experiências vividas nos constroem como pessoas éticas, então qualquer coisa fará… Para o encorajar, as palavras de um “grande” nascido na mesma Argélia: “Il faut mettre ses principes dans les grandes choses, aux petites la miséricorde suffit.” (Camus).

  • Bravo! Bravo!
    É de um debate de substância que precisamos. Ainda hoje estava a ler uma reportagem sobre Cavaco Silva no jornal e fica-se com a sensação de que ele é um misto de “assistencialista” com “conservador” em matéria de costumes. Mas tudo muito vago… Isso é que era bom que Cavaco lutasse por ser um Presidente que “faz” em vez de ser um Presidente que “diz”.

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