Esquecer caras, escolher palavras

Eu não dou opiniões: escolho palavras. Umas palavras desdobram as outras.

Tenho um caso moderado de prosopagnosia, diz uma amiga que estuda estas coisas. Chama-se prosopagnosia à dificuldade de reconhecer rostos.

Para compensar, uso pequenas manhas. Aviso toda a gente. Quando dei aulas, fazia questão de dizer aos meus alunos, na aula de apresentação: “se eu não vos cumprimentar no corredor…” (e aqui poderia ter acrescentado: “…é porque tenho um caso moderado de prosopagnosia”. Passado algum tempo, porém, esqueço-me se já avisei aquelas pessoas ou não, tenho receio de me tornar repetitivo. E então, de vez em quando, lá vão regressando as queixas: serei mal-educado, não cumprimentei fulano, já não conheço os velhos colegas, etc.

Quando isso acontece, passo à fase seguinte: cumprimento toda a gente que julgo conhecer. Atravesso a rua para os saudar. E quando chego perto deles, pronto a abraçá-los, passo pela vergonha de ter de admitir perante um estranho que o tinha confundido com alguém. Sucedem-se os episódios: uma vez acariciei o pescoço de uma jovem atriz (que nunca me fora apresentada) pensando que era uma amiga dos tempos da faculdade. Outra vez confundi duas mulheres que tinham, entre elas, uma diferença de quarenta anos de idade (a mais nova não achou graça — ou melhor, riu à gargalhada, mas não achou graça à mesma). E aí nascem novas histórias: que sou distraído, que faço figuras ridículas.

Envergonhado, deixo de cumprimentar toda a gente. Passo por arrogante. Envergonhado, volto a cumprimentar toda a gente. Passo por tontinho.

A prosopagnosia já me deu uma lição de humildade. Ao entrar numa loja de televisões e câmaras de vídeo, daquelas que filmam a imagem do cliente e a transmitem em simultâneo, vi a cara de alguém projetada num televisor. Pensei: “que cara de idiota”. Aproximei-me, o tipo da televisão também. O tipo com cara de idiota era eu.

A maior ironia da minha vida é passar a vida dando opiniões. Digo e repito: eu praticamente não tenho opiniões.

Filosoficamente, sou pirronista. O pirronista é aquele que nem sequer sabe que nada sabe. Politicamente, sou anarquista. E cada anarquista é-o de vinte formas diferentes, sempre imperfeitas. O verdadeiro pirronista, porém, pergunta-se: como sei que sou pirronista? O verdadeiro anarquista, porém, afirma: ninguém é o verdadeiro anarquista.

Para ser sincero, não gosto de ter opiniões. Opiniões não são coisas que se tenham, como quem constrói um relatório ou um portfólio. Tenho para aí uma opinião ou duas, no máximo. Que a música faz de nós pessoas melhores, eis uma. A segunda não me lembro agora.

Se eu expusesse aqui, duas vezes por semana, as minhas opiniões, não passaria da primeira semana.

Eu não dou opiniões: escolho palavras. Umas palavras desdobram as outras. Certas ideias levam a outras. Tudo tem de ser reconstruído. Com o tempo vamos ganhando uma certa prática. As opiniões que não temos parecem nascer naturalmente; na verdade, são conjeturas, temporárias vitórias de significados.

A tragédia é que, quanto mais vou cultivando a palavra escrita, mais fracasso na palavra falada. Hesito antes de dizer. Ainda não pronunciei e já imagino a objeção. Mais: antecipo já duas ou três objeções de sinal contrário. Calo-me. Quando escrever descobrirei o que penso.

6 Respostas a “Esquecer caras, escolher palavras”


  • Boa a diferença e ‘caracterização’ de pirronistas e anarquistas [a única ‘adesão’ e interesse q me levou (jovem,ainda n saída de casa de meus pais) a ler Bakunine e outros–n me lembro do q diziam– foi a do anarquismo], Rui.
    Porém,n ter opiniões ou só saber e estruturar o q penso dp de escrever (concedo q o ‘rigor’ é maior), são um pouco vitórias à Pirro,não é? [n é para atazinar,só para conversar]

    E como forma superior da ordem,o anarquismo não impõe a sua.
    Dialoga,justapõe, contrapõe,bebe e dá a beber,justifica e tem como suprema arte a obrigação e a liberdade de fazer o seu próprio figurino, si e com os outros.

  • Brilhante texto. É como se estivesse a ler a minha caracterização. Anarquista era a única coisa que eu sabia que podia caracterizar-me, sem correr o risco de me chamarem incoerente. Descobri aqui que de vez em quando também sou pirronista. E claro, desconfio que também sofra de prosopagnosia: figuras ridículas e idiotas faço a toda a hora, pelas mesmas razões.
    Da mesma maneira, também calo antecipando as objecções: vejo mil contrapontos aos meus próprios argumentos. Dou a tese e a antítese, e penso ainda que sobram outras tantas.
    Parabéns, Rui, pela sintonia.

  • Não vale a pena pensar muito. Se antes de emitir opiniões já se pensa em objecções, está-se a exigir demais à comunicação. Acredito numa versão construtiva da coisa: vamos dizendo hoje e corrigindo amanhã e depois. Temos que aceitar o erro e a imprecisão tal como aceitamos os defeitos que toda a bela tem.

    O mesmo se passa com os cumprimentos. Se vai cumprimentar toda a gente, atravessando estradas para apertar mãos, desafiando, quem sabe, a fúria de algum azelha do volante, as pessoas vão pensar que tem um desequilíbrio.

  • E a “Morte Acidental de um Anarquista” (Dario Fo) já constituiu o pretexto para a melhor crítica de sempre às técnicas de infiltração de agentes da “democracia burguesa”.

    Vertida numa farsa/sátira de duplos enganos e timbre hilariante, – qual humorístico libelo acusatório de dedo em riste apontado à corrupção judicial e política – ali reencontramos motivos “adolescentes” para celebrar o alegre potencial desconstrutivo do pensamento anarquista…

  • Falo pelas lefras, pelas teclas… Sofro o mesmo bloqueio da palavra falada… Sou da cantada, da escrita, da pensada, da grafitada… Adorei seus textos, espero que aprecie os meus…

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