É o fim, pim.

Pedro Passos Coelho, Paulo Portas e Cavaco Silva serão a nossa troika do apocalipse.

Pedro Passos Coelho recusa-se a aceitar que o seu governo morreu. Vai daí, decidiu embalsamá-lo e continuar a falar como se ele estivesse vivo. A explicação é simples: foi a incompetência dele que o matou.

Pedro Passos Coelho foi além da troika. Além da galáxia. Além do multiverso. A substituição de Vítor Gaspar por Maria Luís Albuquerque foi para lá do tolerável; a recusa da exoneração de Paulo Portas está para lá do concebível. Não há palavras já inventadas que descrevam esta nova situação: absurreal, alucinática. Seria grotescómica se não fosse suicidente.

O país assistiu ontem, boquiatónico, a um primeiro-ministro que usou palavras como “lucidez” enquanto se recusava a aceitar que o seu governo acabou. É mau demais, mas a extravagância de Pedro Passos Coelho não pode, evidentemente, eclipsar as responsabilidades de Paulo Portas e Cavaco Silva.

Paulo Portas, um homem que alega ter sentido de estado, julga poder retirar-se de um governo a título pessoal quando é presidente de um dos parceiros da coligação, sem se dignar a esclarecer ao país se defende que o seu partido continue como sustentáculo deste governo. Paulo Portas não demonstra só que é incompetente para governar; é inconfiável como parceiro de coligação e (antes que alguém no PS comece a ter ideias) um fator de instabilidade em qualquer governo possível e imaginário.

Cavaco Silva é, na letra da lei, o garante do normal funcionamento das instituições. Bastaria dizer isto e olhar para a situação presente para encerrar o seu caso. Mas é preciso deixar claro como a inação do Presidente da República, como a sua fuga à deterioração que já há muito se tem vivido, têm sido fautoras (o dicionário diz-me que se escreve “fautrizes”: cúmplices, promotoras) desta desgraça. O Presidente da República comprometeu-se com este governo sem a necessária distância que lhe daria imparcialidade. Não pode continuar a fazê-lo. A Presidência da República é, nestes momentos, a válvula de segurança do sistema. Cavaco Silva tem de demonstrar, de forma célere e clara, que irá tomar as medidas necessárias para repor credibilidade e legitimidade política nas instituições de representação e governo.

Caso isso não aconteça, Pedro Passos Coelho, Paulo Portas e Cavaco Silva serão a nossa troika do apocalipse.

Se um pouco de sensatez, se um pouco de juízo resta naquelas altas esferas, admitam que é tempo de dar voz ao povo e convocar eleições. A estabilidade governativa poderia, em tese, ser um argumento válido na nossa situação internacional. Mas esse é um argumento que o atual governo já enterrou. Ninguém acredita que um governo minoritário apoiado por um partido cujo presidente não aceita ser ministro tenha qualquer credibilidade internacional. Por muito menos do que isto já se teria demitido qualquer primeiro-ministro que não fosse Passos Coelho. Não se escapa ao pântano mergulhando mais fundo no pântano.

E, acima de tudo: não provoquem os portugueses com mais jogadas insensatas. A partir de agora, todas as horas contam. As pessoas estão justamente indignadas. Uma parte, provavelmente uma maioria, da sociedade sentirá a prolongação deste governo como uma provocação. Os portugueses são pacientes, mas a situação é volátil. O jogo acabou, reconheçam-no. Não façam mais mal à democracia. Usem a democracia para fazer o bem possível ao país.

(Crónica publicada no jornal Público em 3 de Julho de 2013)

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