Cobardes

14 de Novembro de 2012 (foto: crédito não encontrado)

Há quem ache que a violência das medidas governamentais justifica a violência nas ruas. Não justifica, tal como a violência nas ruas não justifica a violência desproporcional da polícia.

1. A dezena e meia de agressores que passou uma hora a lançar pedras da calçada a polícias, segundo os relatos das manifestações de passado dia 14 de novembro, tem sido chamada de “profissionais do distúrbio” pelo governo ou de “idiotas” pelos outros manifestantes. Creio que eles não se importam muito com nenhum dos epítetos. Mas não lhes têm chamado aquilo que eles são: cobardes.

São certamente cobardes aqueles que apedrejam polícias na plena consciência de que, quando chegar uma carga policial, não lhes faltarão pernas para fugir. Quem ficará à mercê das bastonadas serão os inocentes e indefesos, de velhos a pais com crianças. É cobarde quem tenta assim aproveitar-se da luta dos trabalhadores e é chocante a falta de solidariedade com esta luta e de respeito pelos trabalhadores que naquele dia fizeram uma greve geral europeia, fraterna.

2. Merece também a qualificação o ministro da Administração Interna, Miguel Macedo, por não ter ousado demarcar-se de uma atuação da polícia que foi indiscriminada e brutal, seguida depois por detenções arbitrárias sem respeito pelas garantias legais e constitucionais (por exemplo, de acesso a advogado) e práticas de humilhação e violência psicológica (obrigar jovens mulheres a despirem-se completamente, por exemplo) a pessoas que na sua grande maioria estavam completamente inocentes.

Miguel Macedo seguiu a velha máxima de que, mesmo em caso de abusos generalizados, um ministro não pode “desautorizar” a polícia. Terá provavelmente o pretexto de que, como ministro da tutela, deu as ordens que foram seguidas ou tem por elas responsabilidade política. É verdade: mas isso não o exime de respeitar e fazer respeitar a lei e a constituição, a começar pelos serviços sob sua tutela.

Outros políticos, do primeiro-ministro ao presidente da república e ao líder do PS, não têm qualquer pretexto semelhante. Tal como lhes compete condenar a violência contra a polícia, compete-lhes condenar a violência da polícia, que não pode agir como se não tivesse responsabilidades especiais enquanto corpo da República.

3. Criou-se a ideia de que, vivendo o país tempos difíceis, as liberdades e as garantias são finezas a desconsiderar — e que estas devem seguir o mesmo caminho que já foi apontado aos direitos adquiridos, ou seja, uma hibernação nas sombras até que as finanças do país melhorem.

Isto não é, não pode ser, assim. A Constituição, com as suas liberdades, direitos e garantias, não se fez só para os tempos fáceis. Nos tempos fáceis os problemas são menores. É para os tempos difíceis, é precisamente nos tempos difíceis, que mais precisamos de defender as liberdades civis e garantir o respeito por elas.

4. Mas criou-se também a ideia de que, porque os tempos são difíceis, é legítimo prescindir da paz, da abertura e da tolerância no debate público. Há quem se arvore em juiz último e se permita declarar quem são os “traidores” e a “vergonha” do país, há quem ache que a violência das medidas governamentais justifica a violência nas ruas. Não justifica, tal como a violência nas ruas não justifica a violência desproporcional da polícia.

Também é em tempos difíceis que mais precisamos da coragem de um discurso cívico, democrático e republicano, feito de paz contra a agressividade e o oportunismo dos absolutistas, venham eles de onde vierem.

(Crónica publicada no jornal Público em 19 de Novembro de 2012)

8 Respostas a “Cobardes”


  • So não percebo, como a policia, não conseguiu identificar e planear a detenção dos cobardes.
    Descer as escadas à bastonada só servia se conseguissem de facto, com planeamento, apanhar os culpados. O policia que carrega sobre a população, não pode brandir o bastão a tudo o que mexa mas saber exactamente onde ele deve bater: nos cobardes.

  • Pois! Também como o Rui, e no limite toda a gente, sou apologista da paz, mas…que paz é esta que nos põe a passar fome, doentes e sem futuro? Paz de gente de barriga e carteira cheia! O que faz falta é avisar a malta, que assim vão ter…guerra e aí até os cobardes se agigantam. Viva a luta do povo armado (este slogan deve ser-lhe familiar)

  • cobardes são as brutas margens que os oprimem

    SALTEANDO PALAVRAS À DÚZIA PARA FICAR MAIS BARATO DOIS MIL E DOZE ARMAGEDÃO COM DÃO OU SEM DÃO ARMAS JE DÃO DÃO CHEGA COM ATRASO NO ANO TREZE JÁ É AZAR
    ESPERAR UM ANO POR UM ARMAGEDÃO PROMETIDO PELOS POLÍTICOS MAIAS

    JÁ HÁ UNS BONS SÉCULOS UMA DÚZIA DELES

    E AINDA TER DE PASSAR POR UMA TRETA DE NATAL E ANO NOVO

    QUANDO SE TIVESSEM DEIXADO ISTO À INICIATIVA PRIVADA

    TINHAMOS O ARMAGEDÃO NO DIA VINTE E UM DO MÊS QUE VEM

    OU QUE VAI

    E NÃO PRECISÁVAMOS DE GASTAR RIOS DE EUROS EM ILUMINAÇÕES

    E EM MAÇONARIAS NATALÍCIAS E FESTIVALEIRAS

    ASSIM VAMOS TER QUE GRAMAR OUTRO FILME DO 25 DE ABRIL EM ABRIL

    COMO NO SALAZARISTÃO GRAMÁVAMOS OS DO MENINO JESUS VON HOLLYWOOD

    E NO SOARISTÃO GRAMÁVAMOS A ARTE DUM MAESTRO EM VIENA

    E DUM VASCO GRANJA NO PORTUGAL DOS PEQUENINOS

    E OUTRAS LUMINÁRIAS EN BALLETS ROSE Y OBRAS PIAS

    PORTANTO APÓS DÉCADAS A LER AS PROFECIAS DOS MAIAS

    INTERPRETADAS POR UM TAL DE EÇA E MILHARES DE SETÔRES DE PRETUGUÊS

    A ANSIADA ACELDAMA NUNCA MAIS CHEGA

    ET LE REGIME PAS LE REGIME LE GOUVERNMENT PARECE ETERNO

    E COM ARMAGEDÃO OU SEM ELE

    EM ROSA OU EM LARANJA

    LÁ SE VAI ARRASTANDO NO SÉCULO XXI

    COM OS SEUS ALVES DOS REIS DE ROJO DIANTE DESTE JAGGANATHA SOCIAL

    REZANDO PELAS ALMINHAS QUE SÃO UNS VAMPIROS REPUBLICANOS E LAICOS

    E NÃO COMEM TUDO COMO OS ANTERIORES

    POIS PROVA DISSO SÃO OS CAIXOTES DE LIXO CHEIOS DE RESTOS

    COM QUE AS FARTURAS DO ESTADO SOCIAL

    ALIMENTAM OS SEBOSOS E COVARDES ASSOCIAIS QUE ATIRAM PEDRAS

    ENQUANTO O ESTADO SUCIA ALL ASSISTE À LAPIDAÇÃO DA RALÉ

    E A RALÉ CARREGA CONTRA A RALÉ LAPIDADORA

    A RALÉ DÁ SEMPRE BONS ESPECTÁCULOS DE CIRCO

    É DE FACTO LAMENTÁVEL QUE A RALÉ NÃO TENHA MANEIRAS

    E NÃO DISTINGA ENTRE ESCRAVOS GLADIADORES

    E OS PATRÍCIOS DO FUNCIONALISMO SUCIA ALL

    QUE PATROCINAM TODOS OS CIRCOS

    E ALIMENTAM COM SEUS CAIXOTES DE LIXO TODAS AS RALÉS

  • E este texto não pode ser lido como um oportunismo? Aproveitar-se da violência do regime e da violência do conflito social para vender uma certa ideia de democracia? A da urbe em que discutimos (quem?) civilizadamente nos jornais? Uma das coisas positivas que resultou dessa noite negra do final do dia da Greve Geral foi a oportunidade de lermos muitos, originais e bons textos sobre as pedras, a calçada, a violência patente, latente não só na vida de boa parte dos concidadãos mas no terreno da luta e do confronto social. Apetece-me fazer uma colectânea para deixar aqui como resposta a este texto-bolacha-de-água-e-sal, deixo só, por moderado e inteligente o de Rui Bebiano, “A explicação das pedras”
    http://aterceiranoite.org/2012/11/15/a-explicacao-das-pedras/

  • Cara Josina, não vejo diferença de monta entre o meu texto e o do Rui Bebiano, ou o do Daniel Oliveira que ele cita e que eu também divulguei aqui, através do twitter e do facebook, porque me pareceu ser um excelente texto sobre o que se passou a 14 de novembro.

  • Caríssimo,
    isto não é um comentário nem para ser editado, só para lembrar nosso encontro no dia 5 de outubro, em lisboa, e pedir para abrir o meu email que mandei a convidar para uma conversa à volta dos livros de arquitectura, aqui no porto; mandei para o email da união europeia que foi o que encontrei de imediato; não deve ter sido o mais apropriado à urgência.
    Desculpas e pedido de resposta e acarinhamento da iniciativa – é em conjunto com os estudantes da UP – a Federação Académica.
    Abraço.
    ruitavares

  • Há uma diferença que sobre entre achar desnecessário (também acho, naquele momento naquele contexto) e cobrir de insultos (cobardes,idiotas) o grupo que apedrejou. Uma diferença que Rui Bebiano entende quando se refere, do ponto de vista de classe,à posição que ocupa na sociedade e isso permitir-lhe reflectir e opiniar sobre as pedras (a última frase do texto). Sabe, a sua opinião e a de Daniel Olivera fazem-me lembrar uma certa opinião de um político profissional a condenar as pessoas que não faziam greve. Que não eram corajosas a defender os seus direitos. E eu pensava na “enorme coragem” desse político que na sua vida “profissional” nunca tinha perdido nem ia perder um dia de salário à conta de nehuma greve. Isto não serve para acusar de hipocrisia a tomada de algumas posições mas sim para chamar a atenção que não compreendo que exista uma opinião mais justa e válida sobre a fome do que a daqueles que passam fome. Se não a fome passaria a ser muitas outras coisas.

  • Como é que os palestinianos se defendem ?

    e já agora, o parlamento é algum espaço sagrado ?

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