Cinco anos de oposição

Sarkozy comporta-se como se comportaram os líderes franceses, desde De Gaulle a Luís XIV, passando por Bonaparte: para ele, o tesouro nacional é para ser usado em função da magnificência — muito elástica — do Grande Líder. Para os alemães como Angela Merkel, a memória de um grande trauma económico não é a Grande Depressão, mas a hiperinflação que destruiu a República de Weimar, e durante a qual o Banco Central alemão chegou a ter de imprimir notas de 100 biliões de marcos.

Estrasburgo. É a primeira vez que estou nesta cidade, ainda não posso dizer que a conheço, não tenho cor local para emprestar à crónica. O nome não ajuda. Ou melhor, ajuda até demais: significa “cidade das estradas”, poderia escrever-se “cidade das encruzilhadas”, o que teria dado um bom título e permitiria uma série de figuras de estilo excessivamente fáceis sobre o lugar e os dilemas do futuro.

O problema é que a crónica que tenho em mente é isto mesmo. Numa cidade que já foi alemã, francesa, e depois alemã e francesa outra vez, que se dane a previsibilidade, não posso senão escrever sobre a França e a Alemanha.

Em França, fala-se de aprovar um “superbond”, ou seja, uma enorme emissão de títulos da dívida pública para financiar projectos para os quais ainda se há-de reunir uma comissão de sábios para decidir quais serão. Na Alemanha, às avessas, aprovou-se uma lei que obriga qualquer governo futuro a diminuir o défice numa determinada proporção e, na prática, manter um défice zero provavelmente daqui a uma década.

Não discuto agora se concordo ou discordo de cada uma das medidas. Pergunto-me apenas se as pontes sobre o Reno aguentarão enquanto estes dois países puxam em sentidos opostos.

***

Se por um acaso o euro e as instituições europeias sobreviverem a esta insanidade, será apenas porque o dinheiro que os alemães pouparem acabará por ser emprestado aos franceses, o que criará um novelo de dívidas entre os dois países. Teríamos à escala europeia — e dentro da mesma moeda— o mesmo tipo de simbiose que se constituiu entre os EUA e a China à escala mundial. Apesar das contradições, ou precisamente por causa delas, os dois pólos desta relação precisariam um do outro. Os franceses precisariam que os alemães continuassem a poupar para lhes poderem pedir emprestado, e os alemães precisariam que os franceses continuassem a poder pagar-lhes as dívidas.

Para quem achar que uma relação destas é viciada e que não pode ser boa ideia importar para a União Europeia o tipo de desequilíbrios que já caracterizam a economia mundial, devemos lembrar que (por obséquio, entre outros, de Durão Barroso, que está acima de tudo preocupado com a sua reeleição) tem sido impossível encontrar uma resposta europeia para a crise. Eles até são todos da mesma família política. Na crise, porém, vêm de galáxias diferentes. Sarkozy comporta-se como se comportaram os líderes franceses, desde De Gaulle a Luís XIV, passando por Bonaparte: para ele, o tesouro nacional é para ser usado em função da magnificência — muito elástica — do Grande Líder. Para os alemães como Angela Merkel, a memória de um grande trauma económico não é a Grande Depressão, mas a hiperinflação que destruiu a República de Weimar, e durante a qual o Banco Central alemão chegou a ter de imprimir notas de 100 biliões de marcos.

Eles entendem-se em política para dividir lugares, cozinhar tratados, gerir a União em lume brando. Mas aquilo que a política não consegue unir, a cultura separa.

Entretanto, tomaram posse ontem os novos eurodeputados (eu incluído). Impressiona-me a grande amalgama parlamentar que envolve esta receita conservadora, adicionando-lhe os socialistas deprimidos e os liberais à procura de um lugar na mesa. Os eurocépticos colocam-se voluntariamente de fora do jogo. Resta a esperança de que pelo menos parte dos verdes e da esquerda europeísta consigam contrariar esta política pré-congelada. Uma democracia a sério precisa de um parlamento a sério, e um parlamento a sério precisa daquilo que qualquer país normal teria: oposição.

7 Responses to “Cinco anos de oposição”


  1. 1 Augusto Küttner de Magalhães

    Como é evidente a Oposição é extremamente necessário. Como é evidente Durão Barroso está precopado com a sua reeleição. Como e evidente vai ser reeleito, não há melhor…como é evidente, não foi bom, e nunca o será.
    Porem a oposição – alguma oposição – tem que ser oposição, mas não chega estar sempre e só do contra, do contra, a dizer mal de tudo e de nada. Tem que saber opinar e sugerir situações que possam ser concretizaveis dignamente. Hoje tenho a impressão que se a Sua oposição fosse governo, não sabia governar, por que nasceu para estar do contra, logo tudo é dizer mal., e ai dizer mal de si próprio!!!!!!!

  2. 2 paletadesonhos

    Precisamos , em todas as áreas de actuação económica, social e política , de uma “Nova Ordem”, porque como foi referido no anterior post, nada volta ao que era. O equilíbrio económico e a resolução do velho modelo entre os países aforradores e os despesistas ( é aqui referido a dicotomia USA/China e França/Alemanha) está em reajustamento , passando a China a consumir mais para manter os seus níveis produtos e os USA a controlar as despesas ( hoje no Diario Economico já é referido o proximo colapso , a falência de mais um grupo financeiro de credito comercial, o CIT ) e o surgimento de um novo papel dos países emergentes, tendo por exemplo o crescente papel do fundo soberano Angolano ( Sonangol ) no tecido empresarial português . Nova Ordem …

  3. 3 Nuno Costa Pepe

    Há sempre um primeiro dia para tudo na nossa vida! Aquele onde nos sentamos à mesa para uma refeição, o outro em que partilhamos a mesa com mais alguém e já nos inspira o suspiro alargado a uma sensação,… outros sentidos se estendem na necessidade de criar aquela conversa, que outrora poderá ser discussão ou debate e nesse dia de ontem, exposição! Faz parte da ideologia humana a manifestação de opinião! Há quem o afirme e se exponha outros preferem construir as suas manifestações artesanais!Não me quero perder neste sentido, para transmitir que o parlamento Europeu é sumo dos habitantes europeus! As potencias mais enriquecidas têm também mais poder afirmação, talvez seja injusto, eu pessoalmente considero injusto este modelo europeu baseado em num pilar populacional e não antes territorial-nacional! Na realidade são interesses nacionais que se devem alargar no espaço de manifestação europeia! Pontuando mais um pilar essencial, considero essencial que vocês estes 5 eurodeputados português do grupo da esquerda europeia, tem a missão de representar não apenas individualmente os partidos, BE e CDU, mas antes uma resposta de esquerda que drene as necessidades de um novo pensamento e criação europeia! A minoria nunca destruiu o esforço, mas antes enfatizou-o e sempre lhe tem dado sentido! E se hoje é uma minoria reforçada, é um sinal que há um caminho acrescido com trabalho para uma mudança essencial no panorama global, europeu! Força e bom trabalho!

  4. 4 José M. Sousa
  5. 5 bloom

    Bemvindo. Posso aconselhar restaurantes…

  6. 6 xatoo

    fixe!
    o Bloom, supondo que se trata do Harold, integra qualquer um no cânone restaurador

  7. 7 Augusto Küttner de Magalhães

    Hoje estamos mais por Macdonald`s

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