Burriculum vitæ

Não; não pode ser. Miguel Relvas não pode perder o doutor. Deveria até, como na academia alemã, ser chamado de Herr Professor Doktor Doktor — abreviado para Univ. Prof. Ddr. h. c. Relvas. A notícia de que as equivalências com que a Universidade Lusófona lhe concedeu uma licenciatura foram mais generosas do que as que concedeu a qualquer outro aluno não nos deve espantar; o que é verdadeiramente significativo é que Miguel Relvas tenha tido equivalências a cadeiras que nem sequer existiam.

Isto deve fazer-nos parar para pensar. Que homem é este que está assim tão à frente do conhecimento do seu tempo?

Na tentativa de responder a esta pergunta, ofereço nas próximas linhas uns humildes “Prolegómenos ditirâmbicos a um preâmbulo introdutório à possibilidade de uma relvística futura”. O proémio, como nos ensinou Kant, deve ser: “É Relvas possível?” Vejamos a resposta.

Relvas desempenha na nossa república um papel equivalente ao de Aristóteles junto de Alexandre o Grande, Sila junto de Augusto ou (tremo ao escrevê-lo) Séneca junto de Nero. Relvas é como o homem que segurava para os imperadores a coroa cívica e lhes dizia continuamente ao ouvido: “lembra-te: és mortal”. Sem dúvida que Pedro Passos Coelho pensa isso de cada vez que o vê.

Sabe-se pouco sobre este homem, mas o próprio Relvas disse uma vez: “norteei a minha vida pela simplicidade da procura do conhecimento permanente. Sou uma pessoa mais de fazer do que de falar”. Em suma, e no plural: ele faz conhecimentos. Essa é a chave.

A sua carreira começou muito jovem, na área da propedêutica da juventude partidária, com as suas disciplinas de seguidística aplicada, favorometria elementar e sociopragmática da cunha, na qual revelou aptidões invulgares. Os melhores alunos desta fase passam para o exercício da chamada chapeladística psefológica, ou alquimia eleitoral. Daqui é um pulo até aos estudos de eclesiologia partidária, logo depois de etnografia parlamentar, e finalmente de ontogénese do mundo empresarial, com especialização em lusotropicapitalismo. Pelo meio, uns estágios em musicologia na Loja Mozart, e pesquisas aturadas de fisiologia animal sobre o Anas platyrhynchos (vulg. “pato bravo”). Estas são ciências de ponta. Para lá delas encontram-se as férteis pradarias da vigarística, da enganêutica e da gatunologia. Portugal tem tido um grande desenvolvimento nesta área, com os trabalhos pioneiros dos doutores Isaltino Morais, Dias Loureiro e Duarte Lima. Talvez também ele no futuro possa satisfazer o seu gostinho pela nepotologia helvetística, a microclimatologia das ilhas Caimão e, quiçá, dar uma mãozinha na gerontologia forense.

Não nos deve por isso estranhar que lhe tenha sido dada equivalência não só às cadeiras de Português I, II e III, que existiam, como às de Português IV e V, que precisaram de ser inventadas especificamente para ele. Ele deveria ainda ter tido uma equivalência a Metafísica da Língua Portuguesa. Pois é certo que, apenas com o uso da nossa língua materna, Relvas já conseguiu coisas que todos os portugueses julgavam impossíveis, e continua a superar as barreiras da realidade.

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