A nossa agente em Petersburgo

Claro, quem melhor denuncia a identidade dos nossos espiões é sempre o ministro da tutela, desde Veiga Simão que publicou uma lista com os nomes deles, a Augusto Santos Silva que anteontem anunciou que ia enviar espiões militares para o Líbano.

“Temos de ir beber um copo com o gajo do SIS”. “Com o gajo do quê?”. “Do SIS, pá, com o nosso espião”. “E tu sabes quem é?”; “toda a gente sabe”; “toda a gente, como?”; “oh pá, toda a gente: os estudantes de piano, os de matemática, e o português que veio para cá atrás da namorada — todos”. “Mas então o gajo revela assim a identidade?”. “Eh pá, tens que ver que ele está um bocado dependente de nós” — o meu interlocutor encolheu os ombros — “é que o gajo do SIS não sabe falar russo”.

Estávamos numa cidade de cujo nome não quero recordar-me, mas onde falar russo não era insignificante. Bastava aguçar os ouvidos: toda a gente ali falava russo — menos eu e o gajo do SIS.

Dias antes eu tinha estado na famosa MGIMO, a escola diplomática russa a que também chamam “fábrica de espiões”. Ali não se aprende só o idioma; conversei vinte minutos com um tipo de perfeito sotaque beirão até lhe perguntar se ele não era da Mealhada (gosto de identificar sotaques como há quem goste de decorar matrículas). Resposta dele: “não, sou de Moscovo mesmo”. Ainda boquiaberto, mas seguro dos meus conhecimentos de português brasileiro, dei por mim a confirmar “você é carioca, certo?” junto de um outro que deveria ser de Vladivostok.

Mandar para a Meca da espionagem um desgraçado que nem fala a língua local só se pode explicar por ele, em Lisboa, ter irritado um chefe qualquer. Mas ninguém merece. A história é talvez apócrifa; eu não cheguei a conhecer o nosso tuga que foi para o frio. Mas ocultei-a até hoje por cautela com a segurança dele, não fosse perder-se no caminho para casa com um vodca a mais e cair às águas de um rio que não posso identificar.

Claro, quem melhor denuncia a identidade dos nossos espiões é sempre o ministro da tutela, desde Veiga Simão que publicou uma lista com os nomes deles, a Augusto Santos Silva que anteontem anunciou que ia enviar espiões militares para o Líbano. Estou convencido de que o ministro nos dirá que não há problema nenhum em pôr de sobreaviso as pessoas que queremos espiar. Nesse caso, estou em boa companhia para o que vou fazer a seguir.

Dias depois, conheci a nossa agente em São Petersburgo. Vou revelar aqui o nome dela: Elena Golubeva. Linda, como é da praxe: mais de oitenta anos, olhos espertos e uma voz delicada.

Não, não é agente do SIS, embora fale russo melhor do que eles — e, pensando bem, melhor português também. Que eu saiba não recebe um centavo do nosso governo. O que é pena.

Há sessenta anos, Elena Golubeva descobriu a língua portuguesa. Foi a primeira pessoa a traduzir Fernando Pessoa na URSS. Camões, também. E nunca mais parou. De Torga e Saramago até aos novíssimos como Gonçalo M. Tavares. Persistente, doce, a princípio sozinha, foi reunindo uma tribo da lusofonia. A ajuda de um estudante português de música é preciosa; a visita de um escritor é um tesouro. Ali numa sala pequenina da Universidade de São Petersburgo, rodeados pelos departamentos poderosos em dinheiro e meios (espanhol, inglês, alemão) eles vão mantendo a chama acesa.

Desde que a conheci que abri uma excepção e faço campanha para que lhe dêem uma medalha no 10 de Junho. Ela preferiria que lhe enviassem livros, ou um leitor do Instituto Camões.

E é assim, caro Ministro: também conheço uma luso-libanesa com o curso da faculdade de letras; fala um árabe perfeito e tem rudimentos de persa. Mande-a para uma boa universidade em Beirute. Mas se quer um conselho, esqueça isso dos espiões até deixar de ser irremediavelmente nabo.

3 Respostas a “A nossa agente em Petersburgo”


  • “L’espionnage serait peut-être tolérable, s’il pouvait être exercé par d’honnêtes gens…”

    “A espionagem talvez fosse tolerável, se pudesse ser exercida por pessoas honestas…”

    No ano da comemoração do centenário da República, não devia citar Montesquieu, mas foi esta “ironia ética” que ele tantas vezes exercitou por tão boas causas (a crítica ao esclavagismo, p. ex.) que me ocorreu…

    Já depois de, nostálgica, ter ido pegar nos meus dois tomos velhinhos, velhinhos da “Pléiade” com as suas obras, encontrei outra boa “tirada”, que transcrevo, por me parecer apta a explicar a inexistência de uma ampla, moderna e bem apetrechada rede de Centros Culturais e Leitorados de Língua Portuguesa por esse mundo fora:

    “Les politiques grecs ne reconnaissaient d’autre force que celle de la vertu. Ceux d’aujourd’hui ne vous parlent que de manufactures, de commerce, de finances, de richesses et de luxe même.”

    “Os políticos gregos não reconheciam outra força senão a da virtude. Os de hoje não vos falam senão de manufacturas, de comércio, de finanças, de riquezas, senão mesmo de luxo.”

    Vou “aggiornar” “virtude” e, traindo o Montesquieu monárquico, acrescentar-lhe os adjectivos “republicana e democrática” para concluir que: felizmente, há algumas excepções, como a do Autor deste blog.

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