Arquivo mensal para June, 2018

Eu quero Maria lembrada no Parlamento [texto integral]

|Do arquivo Público 26.01.2018| Não sei o nome completo, nem sei o nome verdadeiro dela. No PÚBLICO chamaram-lhe Maria, assumindo que o nome fictício servia para proteger a identidade da vítima. Noutros órgãos de comunicação social chamaram-na de Laura, ignorando eu se era esse o verdadeiro primeiro nome dela.

Só sei que era uma concidadã minha, uma concidadã nossa, e que morreu assassinada pelo marido — de quem se encontrava separada — em 4 de novembro de 2015, em Valongo, no Porto. Maria foi assassinada 37 dias depois de ter feito queixa do seu marido ao Ministério Público por violência doméstica, tendo deixado claro que este lhe dirigia ameaças de morte (“vou-te matar!”, dizia ele). Passou mais de um mês até que Maria fosse chamada de novo a pormenorizar as suas queixas. Um mês em que Maria viveu no medo e durante o qual teve de ouvir novas ameaças, que de novo transmitiu ao Ministério Público: “rebento-te a cabeça se fizeres queixa de mim!”. Depois desse segundo testemunho, Maria voltou a casa. O marido desavindo estava escondido no quintal e matou-a à paulada. No dia seguinte, foi finalmente chamado ao Ministério Público e constituído arguido. Maria já estava morta e o Ministério Público não sabia. O corpo foi só encontrado três dias depois.

Como é que se costuma dizer? “O Estado falhou aos cidadãos”, não é? Pois é, o estado falhou a Maria. Continuar a ler ‘Eu quero Maria lembrada no Parlamento [texto integral]’

Então não era o Ronaldo contra os gregos? [texto integral]

|Do arquivo Público 24.01.2018| Um dos argumentos típicos contra a ida de Centeno para a presidência do Eurogrupo era mais ou menos assim: “então e quando ele tiver de lidar com o governo da Grécia? Vai ter de assumir o papel de Dijsselbloem e da troika? Agir como o polícia do austeritarismo alemão contra o Sul? Para tal triste função mais vale prescindir do lugar e passar a bola a um carrancudo ministro do Norte da Europa”.

Ontem Centeno presidiu à sua primeira reunião do Eurogrupo. E à saída, fez o seu primeiro anúncio sobre a Grécia: o de que vão ser abertas as negociações para um alívio da dívida pública grega. Seria portanto interessante ler algures uma análise com uma explicação para isto por parte de quem defendeu que o papel de Centeno seria o contrário disto: punir os gregos e não renegociar dívida grega.

Suspeito que se tal análise aparecer ela siga um de dois caminhos. Por um lado, assinalar que se Centeno anunciou a abertura de negociações para o alívio à dívida grega na sua primeira reunião é porque isso não se deve a Centeno, mas certamente a decisões que já vêm de antes da sua presidência e ficaram agora prontas a ser divulgadas em público: fruta madura, fácil de apanhar. Por outro lado, dizer que se não couber a Mário Centeno o papel de “polícia mau” do eurogrupo contra a Grécia é porque lhe caberá o papel de “polícia bom”. Continuar a ler ‘Então não era o Ronaldo contra os gregos? [texto integral]’

Os partidos-médium e os deputados-fantasma [texto integral]

|Do arquivo Público 22.01.2018| Como funciona um parlamento? Em qualquer café do país a resposta virá pronta: num parlamento tomam-se decisões através do voto. O lado de qualquer questão que tiver mais deputados ganha. Certo? Em praticamente todos os lugares do mundo, sim. Em Portugal, não.

Aqui vai outra pergunta. Qual é o número maior, 99 ou 98? Em qualquer lugar do mundo, incluindo Portugal quase inteiro, 99 é o número maior. No plenário da Assembleia da República Portuguesa, contudo, 98 é maior do que 99.

Confuso? Pois explica-se muito facilmente.

A história foi descoberta pelo site independente hemiciclo.pt e divulgada pelo DN de ontem. Continuar a ler ‘Os partidos-médium e os deputados-fantasma [texto integral]’