Arquivo mensal para November, 2017

Valha-nos São Cucufate

“Ora, isto de termos dos orçamentos culturais mais baixos da UE não é uma fatalidade de um Portugal pobre e periférico. Por comparação, temos felizmente na Saúde ou na Educação orçamentos em linha com a média europeia. Ter a cultura suborçamentada, e dentro dela o património, é triste. Mas é uma escolha. Uma escolha política, de sucessivos governos e parlamentos, com maiorias de direita e de esquerda. Uma escolha política que nem com a “geringonça” foi invertida — a Cultura nunca foi linha vermelha de nenhuma negociação orçamental entre PS, BE e PCP. Provavelmente por razões justificadas, que as prioridades são mais que muitas. Mas essas escolhas implicam depois responsabilidades no debate público.

Ou seja: enquanto não se financiar a cultura capazmente, a discussão sobre a mercantilização dos monumentos está a ser feita no vazio, e com não pouca hipocrisia, porque os diretores de monumentos estão a cumprir exatamente com o que os nossos políticos (de direita e agora de esquerda) lhes pediram: fazer muito com pouco. E enquanto as ordens de governos e parlamentos sucessivos forem essas, vêmo-nos compelidos a rezar para que um jantar em Santa Engrácia chegue um dia para iluminar e vigiar São Cucufate. Sendo certo que o escândalo que se daria se São Cucufate fosse deixado ao abandono ou vandalizado seria, como todos imaginamos, enorme. Porém, como todos sabemos também, não daria para encher as redes — ou sequer para uma notícia breve numa página interior de um jornal nacional.”

Leiam o texto completo no Público de hoje.

O que a AR deve fazer para nunca esquecer o combate à violência doméstica [texto integral]

|Do arquivo Público 01.11.2017| Eis uma coisa que aprendi com o parlamento da Catalunha, e que não tem nada que ver com a questão da independência. No princípio do mês liguei-me ao sítio do Parlament para assistir em direto a uma declaração sobre os resultados do referendo de 1 de outubro. Para minha surpresa a presidente do parlamento, Carme Forcadell, iniciou a sessão dando informações atualizadas sobre o estado de duas mulheres vítimas de violência doméstica, uma das quais tinha falecido. De seguida, atualizou os números de vítimas mortais de violência doméstica na Catalunha. E só depois deu a palavra ao presidente da Generalitat para que se pronunciasse sobre o assunto do momento. Nem a esperada (e logo suspensa) declaração de independência alterou o dever de memória perante as vítimas da violência doméstica.

Aquele ato — que presumo pouca gente tenha visto — foi um soco no estômago. Não sei se é uma obrigação regimental do parlamento catalão. Mas sei qual é a intenção do ato: obrigar os legisladores a encararem a realidade brutal da violência doméstica. Obrigar os representantes dos cidadãos a nunca esquecerem as vítimas. Obrigar a instituição máxima de uma democracia a nunca retirar o combate a este crime do topo das suas obrigações. Isto vale para o Parlamento da Catalunha como vale para qualquer outro parlamento, seja ele autonómico ou nacional. E eu defendo que deve valer para o Parlamento português.

Portugal não é o único país no qual a cultura adquirida desculpabiliza, Continuar a ler ‘O que a AR deve fazer para nunca esquecer o combate à violência doméstica [texto integral]’

Portugal hoje: patriotismo de teclado

A minha crónica de hoje no Público.

“Querem fazer do Panteão sacrossanto? Muito bem. Então lembrem-se que este é o país cuja Assembleia da República aprovou a trasladação de Eusébio para o Panteão um ano após o seu falecimento, mas que ainda não conseguiu para lá levar Aristides de Sousa Mendes quase oitenta anos depois de ele ter salvado milhares de vidas na IIª Guerra Mundial. Mais: este é o país no qual, se acontecesse a desventura de falecer Cristiano Ronaldo, a AR teria em toda a coerência de levar o CR7 para o Panteão ainda antes de lá pôr um “justo entre as nações” como Aristides. E repetir-se-ia para muitos dos escandalizados de hoje o aplauso geral com que não falharam ontem.
Querem respeitar o simbolismo dos monumentos nacionais? Muito bem. Reparem então, de cada vez que passarem pela Praça do Comércio, espaço central da nossa simbólica de Estado, que a República mais visível que lá encontrarão é a República… da Cerveja. Reparem que um pedaço da mesma praça está ocupado por uma coisa chamada o “WC mais sexy do mundo”, concessionado para permanente propaganda de uma marca de papel higiénico (é ao lado do Ministério das Finanças; paga-se 50 cêntimos para usar os urinóis e passam fatura com número de contribuinte, portanto deve estar tudo certo). Isto nunca escandalizou ninguém em Portugal. Perguntem-se se o mesmo aconteceria na Praça de São Pedro, no Louvre ou no Kremlin.”

O que a AR deve fazer para nunca esquecer o combate à violência doméstica.

“Dir-se-á que abrir cada sessão plenária da AR com a informação atualizada dos crimes de violência doméstica será uma estratégia de choque. Dir-se-á que lembrar as mulheres assassinadas antes de cada debate quinzenal com o primeiro-ministro será um gesto brutal. Sim, será brutal. Será também necessário.
Enquanto a cultura predominante — até no judiciário — continua a ser a de afastar o problema da vista, enquanto até um ex-ministro da cultura é condenado — com pena suspensa — por violência doméstica, o país precisará de reforçar as formas de encarar a sua realidade. O país político, representado pelo parlamento e o governo, não poderão mais esquecer a sua obrigação de agir. O estado não poderá mais desviar o olhar de todas as mulheres agredidas e assassinadas em casos de violência doméstica em Portugal.”

Podem ler o texto completo no Público de hoje.