Arquivo diario para June 25th, 2017

A entreajuda [texto integral]

|Do arquivo Público 18.06.2017| 

O mais importante agora, pouco mais de um dia após o incêndio em Pedrógão Grande que vitimou mortalmente mais de meia centena de pessoas, é socorrer as populações afetadas, dar apoio aos sobreviventes e às famílias das vítimas e prestar auxílio aos bombeiros e à proteção civil. Essa é a primeira linha da solidariedade. Mas asolidariedade é necessária para lá do imediato: como torná-la mais perene e mais perfeita?

A semana que passou foi marcada por dois incêndios — muito diferentes nas origens, tão parecidos nas consequências — e em ambos a questão da solidariedade é forçosamente a questão central. Em Londres, pelo menos meia centena de pessoas morreram numa torre residencial: num dos bairros mais finos da opulenta capital britânica, os serviços sociais e de proteção civil foram forçados a uma poupança tão restritiva que até permitiu devolver impostos a alguns dos seus habitantes mais ricos. Mas a torre onde viviam os habitantes pobres desse bairro rico não tinha dispositivos anti-incêndio em número suficiente e fora revestida com um material inflamável mais barato em duas libras do que o seu equivalente à prova de fogo — no total, uma vergonhosa poupança de cerca de 5 mil euros nas origens de um incêndio que nos diz muito sobre o colapso da solidariedade na era dos cortes orçamentais.

O incêndio de Pedrógão Grande tem circunstâncias inteiramente diversas e sobretudo origens muito diferentes. Nos próximos tempos haverá certamente uma discussão sobre o que mais poderia ter sido feito para evitar tantas vítimas mortais. Mas seria importante que a discussão fosse para lá disso e que entrasse no campo da nossa responsabilidade coletiva perante o meio ambiente e entre todos nós. Mais uma vez, é uma questão de solidariedade, antes, durante e depois da catástrofe. É essencial que haja espaço democrático e vontade política para que o debate especializado seja feito e dele nasçam propostas inovadoras (que até podem ser velhas práticas, rejuvenescidas, como a da refundação de um verdadeiro serviço de proteção de florestas) e o mais abrangentes possível, para implementar num calendário claro e publicamente conhecido. As alterações climáticas vão trazer consigo mais ocorrências de fenómenos meteorológicos extremos, num país em que a floresta tem uma grande prevalência territorial e uma enorme importância económica. Temos de exigir todos que Portugal se prepare melhor e que tome a dianteira desta agenda ambiental, no cruzamento com aproteção civil. Continuar a ler ‘A entreajuda [texto integral]’