Arquivo mensal para June, 2017

A sociedade custo-benefício

Hoje no Público, a partir da dignidade e do custo-benefício como dois principais paradigmas da governação na Europa do pós-guerra.

“Após a catástrofe, é fácil concordar que isto não deveria ser assim. Mas antes da catástrofe, quando as mesmas pessoas perderam acesso à estação do correio, à esquadra ou à escola, não faltou quem dissesse que “não compensava” pôr certos serviços no interior. Depois da desertificação, resta a indignação contra a morte. Convinha, no próximo debate sobre o interior, que não fosse esquecida a dignidade em vida.”

A entreajuda [texto integral]

|Do arquivo Público 18.06.2017| 

O mais importante agora, pouco mais de um dia após o incêndio em Pedrógão Grande que vitimou mortalmente mais de meia centena de pessoas, é socorrer as populações afetadas, dar apoio aos sobreviventes e às famílias das vítimas e prestar auxílio aos bombeiros e à proteção civil. Essa é a primeira linha da solidariedade. Mas asolidariedade é necessária para lá do imediato: como torná-la mais perene e mais perfeita?

A semana que passou foi marcada por dois incêndios — muito diferentes nas origens, tão parecidos nas consequências — e em ambos a questão da solidariedade é forçosamente a questão central. Em Londres, pelo menos meia centena de pessoas morreram numa torre residencial: num dos bairros mais finos da opulenta capital britânica, os serviços sociais e de proteção civil foram forçados a uma poupança tão restritiva que até permitiu devolver impostos a alguns dos seus habitantes mais ricos. Mas a torre onde viviam os habitantes pobres desse bairro rico não tinha dispositivos anti-incêndio em número suficiente e fora revestida com um material inflamável mais barato em duas libras do que o seu equivalente à prova de fogo — no total, uma vergonhosa poupança de cerca de 5 mil euros nas origens de um incêndio que nos diz muito sobre o colapso da solidariedade na era dos cortes orçamentais.

O incêndio de Pedrógão Grande tem circunstâncias inteiramente diversas e sobretudo origens muito diferentes. Nos próximos tempos haverá certamente uma discussão sobre o que mais poderia ter sido feito para evitar tantas vítimas mortais. Mas seria importante que a discussão fosse para lá disso e que entrasse no campo da nossa responsabilidade coletiva perante o meio ambiente e entre todos nós. Mais uma vez, é uma questão de solidariedade, antes, durante e depois da catástrofe. É essencial que haja espaço democrático e vontade política para que o debate especializado seja feito e dele nasçam propostas inovadoras (que até podem ser velhas práticas, rejuvenescidas, como a da refundação de um verdadeiro serviço de proteção de florestas) e o mais abrangentes possível, para implementar num calendário claro e publicamente conhecido. As alterações climáticas vão trazer consigo mais ocorrências de fenómenos meteorológicos extremos, num país em que a floresta tem uma grande prevalência territorial e uma enorme importância económica. Temos de exigir todos que Portugal se prepare melhor e que tome a dianteira desta agenda ambiental, no cruzamento com aproteção civil. Continuar a ler ‘A entreajuda [texto integral]’

Olhar para dentro

Pedrógão visto do espaço.

“Portugal tem um problema político. Nos últimos dias, não há melhor símbolo para esse problema do que o caso do SIRESP, o sistema de comunicações utilizado pelo estado para situações de emergência, e que no sábado falhou. Não sabemos se essa falha teve implicação direta na sequência de eventos que levou à morte de tantas pessoas, mas parece certo que o sistema já falhou em várias outras ocasiões e que nada garante que não venha a falhar no futuro. Ora, desfiar a história do SIRESP, como o Público tem feito nos últimos dias, é desfiar a história da nossa política na última década. Lá estão as antigas empresas do regime, da SLN e do BPN ao BES e à PT. Lá está uma PPP a carregar no sobre-faturamento e a prestar um serviço defeituoso, só porque o cliente é o estado e o estado paga a renda. E lá está a pergunta inevitável: faz sentido que tenhamos nacionalizado tantos bancos, e que o sistema de telecomunicações de emergência de que depende o estado não seja nacionalizado?”

A desforra dos “cidadãos de nenhum lugar” [texto integral]

Pintura: Dai Dudu, Li Tiezi e Zhang.

 | Do arquivo Público 14.06.2017 | Na passada quarta-feira sugeri que a rainha da Brexitânia, Theresa May, ia nua e que a única questão era saber quando alguém iria reparar. A resposta chegou na madrugada do dia seguinte. Os resultados eleitorais comprovaram a perda de maioria absoluta pelos Conservadores britânicos, a partir de agora dependentes dos sectários protestantes unionistas da Irlanda do Norte. É uma Theresa May sem peso negocial que se apresenta agora perante Bruxelas, perante o parlamento britânico e até perante Belfast, ou melhor, perante os bairros protestantes da capital norte-irlandesa.

O governo britânico, com o contra-relógio do Brexit a contar inexoravelmente, desejava ir para as negociações em Bruxelas com uma braçada de exigências incompatíveis entre si. Por um lado, dizia querer uma saída radical da UE, — a não ser quando lhe dava jeito um acordo feito à medida para benefício de Gibraltar, para a Irlanda do Norte, e para manter os refugiados encurralados do outro lado do Canal da Mancha, em Calais, na França. Por outro lado, queria sair do mercado único e da união aduaneira europeia, — a não ser quando se tratasse de manter acesso privilegiado ao mercado único para as suas exportações. Desejava acabar com a liberdade de circulação, mas sem atrapalhar a vida dos reformados britânicos no Sul da Europa, que têm acesso aos sistemas nacionais de saúde locais. Não obedecer a sentenças de juízes europeus, mas manter os “passaportes bancários” para a finança londrina. May e os seus ministros gostariam evidentemente de manter a lucrativa indústria de compensações da zona euro, que vale quase um bilião (não é engano: um milhão de milhões) de euros por dia… situada fora da zona euro. A certa altura, Continuar a ler ‘A desforra dos “cidadãos de nenhum lugar” [texto integral]’

Ao especialista instantâneo em incêndios

Ao especialista instantâneo em incêndios – hoje no Público.

“A sazonalidade dos fogos determina a dilatação do perímetro de especialistas e a multiplicação dos espécimes opinativos. São eles o preço a pagar por podermos ouvir também os especialistas não-instantâneos (ou, como eu lhes prefiro chamar, “aqueles e aquelas com quem se aprende qualquer coisa”) que estão cada vez melhores. Distingo-os à maneira possível aos pobres não-especialistas como eu: aquelas e aqueles com quem se aprende alguma coisa, além de não costumarem aparecer no resto do ano, são menos definitivos nas suas respostas, repetem muitas vezes que “é complicado” (para desespero dos entrevistadores) e têm, em geral, um ângulo ou abordagem que perseguem há anos, metodicamente: sabem que proteção civil não é idêntica a proteção ambiental, que o ângulo da desertificação não é o mesmo das alterações climáticas, que a prevenção e o combate não têm os mesmos princípios nem os mesmos objetivos, etc. Sabem que precisam uns dos outros para avançar no conhecimento e nos resultados.”

A entreajuda

“O mais importante agora, pouco mais de um dia após o incêndio em Pedrógão Grande que vitimou mortalmente mais de meia centena de pessoas, é socorrer as populações afetadas, dar apoio aos sobreviventes e às famílias das vítimas e prestar auxílio aos bombeiros e à proteção civil. Essa é a primeira linha da solidariedade. Mas a solidariedade é necessária para lá do imediato: como torná-la mais perene e mais perfeita?”

Esta é a pergunta da minha crónica de hoje no Público. Podem ler a resposta aqui.

Calma pessoal, a galinha não pôs o ovo

(Foto: Daniel Leal-Olivas/Getty Images)

Há um ano e um dia, estava o Reino Unido a uma semana do seu referendo europeu, alertei para a luta por agências da UE que aí vinha. Defendi desde então, em público e diretamente ao governo, que Portugal — não Lisboa, mas Portugal — apresentasse a sua candidatura à Agência Europeia do Medicamento, o que foi feito, com a vantagem da antecedência sobre outros possíveis candidatos. E eis que agora o mundo político português acorda para o assunto. Não a tempo de melhorar a candidatura do país, à qual prestaram muito pouca atenção até agora, para lá de distraídos votos unânimes no parlamento, mas ainda muito a tempo de apimentarem a campanha para as autárquicas. Daqui a uns tempos, infelizmente, esquecerão o que hoje disseram sobre descentralização. É sobre tudo isso a minha crónica ontem no Público .

“Portanto, caros líderes políticos, façam o favor de se entenderem. Escolham rápido e definitivamente uma cidade candidata, seja aquela que defendiam unanimemente há um mês, ou qualquer outra. Unam-se em torno da excelente cidade portuguesa escolhida. E aproveitem a polémica para se decidirem, de uma vez por todas, a apresentar um plano bem feito, orçamentado e calendarizado, para ir retirando de Lisboa organismos relevantes do estado central.”

A desforra dos “cidadãos de nenhum lugar”

A desforra dos “cidadãos de nenhum lugar” – é a minha crónica de hoje no Público.

“Não admira, portanto, que a partir do primeiro “o rei vai nu!” já haja de repente muita gente a dizer o que antes calava. Mas a queda de Theresa May começou muito antes, quando tentou cavalgar a onda nacional-populista acusando os britânicos que se considerassem “cidadãos do mundo” de serem “cidadãos de nenhum lugar”. Esta aposta política pode ter parecido taticamente compensadora, mas — num país desenvolvido, com uma juventude cada vez mais educada e internacionalizada — constituiu um erro estratégico. O referendo tinha, em certa medida, criado a imagem de um eleitorado dividido entre as linhas anti-austeridade e pró-europeia. As eleições permitiram voltar a juntar essas duas linhas contra Theresa May, com Jeremy Corbyn defendendo vigorosamente a linha anti-austeridade, mas não hostilizando a linha pró-europeia, de forma a que os “cidadãos de nenhum lugar” pudessem também tirar a sua desforra e, através do voto trabalhista, meter um pau na engrenagem do Brexit mais extremista.”

(Imagem: Daily Mail Reporter)

França: a tática, a moral e a história

A política não é feita só, nem principalmente, de tática, mas de escolhas morais e históricas. Mas há quem só entenda os erros morais e históricos quando eles se revelam erros táticos. Os primeiros resultados das legislativas em França permitem revisitar esta verdade:

“À esquerda nunca pode ser indiferente de que lado da história se está. Estar contra a Europa para competir com a extrema-direita ou estar do lado da Europa para combater a extrema-direita não é a mesma coisa. No primeiro caso, opta-se por desistir do projeto europeu em nome de uma leitura do regresso da história à chave “nacional”. No segundo caso, faz-se o esforço de apresentar uma versão de esquerda daquilo que poderia ser um projeto europeu social e democrático e uma visão justa da globalização, se quisermos que a Europa e a globalização não sejam monopolizadas só pelo centro. As eleições francesas de ontem, dominadas por um Macron que afinal não é tão detestado como isso, e onde os socialistas foram arrasados e a dinâmica de Mélenchon se esvaziou, sugerem que em França estamos mesmo numa situação de monopólio do centro. Se a esquerda francesa quiser reconstruir-se para disputar a sério esse monopólio, uma boa ideia seria apresentar uma visão alternativa do que deseja para o projeto europeu, em vez de apostar só no suposto colapso da UE.”

Leiam o resto na crónica de hoje no Público

Não há opções boas para o “Brexit”

A crónica de hoje, escrita antes das urnas fecharem no Reino Unido, sobre um cenário que ficou mais provável após sabermos os resultados: o que acontece se houver Brexit sem acordo com a UE?

“Se o Reino Unido chegar a 30 de março de 2019 sem um acordo com a UE, tudo isto deixa de valer ao bater da badalada. Os camiões que tragam produtos até à fronteira terão de parar para ser fiscalizados. As peças que façam parte de linhas de montagem pan-europeias não serão entregues a tempo. Aviões de companhias britânicas que voem entre dois países da UE deixarão de ter base legal para o fazer. E, acima de tudo, milhões de cidadãos da UE no Reino Unido e britânicos na UE ficarão com as suas vidas viradas do avesso.” – No Público.