Arquivo mensal para Agosto, 2015

A geografia da crise em mudança (2)

Perspectiva do mundo – 1817

 Para que as coisas não corram mal será necessário extrair a política da cultura dominante de egoísmo e recriminação, e voltar a ter a grandeza de uma política com vocação humana, escala global e cultura cosmopolita. As ideologias atuais estão singularmente mal preparadas para o que nos espera.

Escrever sobre a bolha da China é mais fácil hoje do que na semana passada, na primeira crónica desta série, para não falar de há sete anos, quando pela primeira vez me referi a ela. A avaliar pelos títulos de jornais de ontem, ninguém fala de outra coisa.

O que nos deve preocupar é a possibilidade de esta ser uma crise em três vagas: a primeira, quando se iniciou, nos EUA; a segunda, a partir de 2010, com a transmissão à crise do euro; e a terceira, agora, com o retrocesso dos países emergentes.

Se assim for, estaremos apenas a meio de uma crise global muito dolorosa. Continuar a ler ‘A geografia da crise em mudança (2)’

E outra coisa?

Para a política ser outra coisa, seria bom que os políticos e quem os aconselha começassem por se lembrar que “os portugueses”, essa massa mais ou menos indistinta a quem eles ostensivamente servem mas que parecem não valorizar por aí além, são portugueses e mais do que isso. Os portugueses são estudantes e trabalhadores, desempregados e empresários, pais e mães, avós e netos. São ou foram emigrantes e — já agora — muitos dos que fazem Portugal não nasceram cá.

Ontem foi a rentrée política e lá nos serviram mais um prato de mesmo com mesmo. A menos de dois meses das eleições legislativas, a grande pergunta é se a política pode ser mais do que isto ou se devemos conformar-nós à ideia de que, após umas semanas perdidas a discutir cartazes, é possível que os discursos de Paulo Portas e Passos Coelho — após quatro anos de governo — tenham sido de um vazio tão confrangedor que os comentadores de serviço se vêem aflitos para encher os intermináveis minutos de televisão que lhes dão.

Sim, eu sei. Já há muito que a política portuguesa se tornou nesta coisa previsivelmente coreografada em que, mesmo quando há um assomo de conteúdo, o que se passa a mais das vezes não sai do “fulano acusa sicrano de pôr em causa x ou y”, “sicrano responde a beltrano devolvendo as acusações sobre fulano”. A que se deve isto? Em primeiro lugar, é mais fácil: há espaço para ocupar, e isto ocupa espaço sem arriscar nada. Em segundo lugar, os políticos e quem os aconselha acha que “os portugueses” não querem ou não precisam mais do que isso. E, em terceiro lugar, por desconfiança: estamos de tal forma habituados a esta forma desidratada de política que ficamos de pé atrás se nos propõem que a política seja outra coisa. Continuar a ler ‘E outra coisa?’

O que faria Aristóteles?

Os cobardes são aqueles que ficam paralisados pelo medo; os temerários aqueles para quem o medo não existe. E os corajosos aqueles que reconhecem o medo sem que isso os impeça de avançar.

Há dois géneros de pessoas: as que dividem o mundo em dois géneros de coisas e Aristóteles, que tinha hábito de dividi-lo em três.

Aristóteles, por exemplo, não dividia o mundo só em cobardes e corajosos, ou verdadeiros e mentirosos. Na sua Ética a Nicómaco, as categorias da coragem ou da verdade são sempre três. O corajoso, por exemplo, é apenas a categoria intermédia entre os cobardes e os temerários. O sincero, por sua vez, é apenas a categoria intermédia entre o modesto e o mentiroso.

Então é assim: Continuar a ler ‘O que faria Aristóteles?’