Arquivo mensal para Junho, 2015

Onde há um impossível, arregaçar as mangas — e só agora começámos

[declaração de candidatura às primárias LIVRE/TEMPO DE AVANÇAR]

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Ainda sou do tempo em que se dizia que era impossível juntar centenas de cidadãos numa eleições primárias abertas. Vocês também: foi apenas há umas semanas. Ainda somos do tempo em que nos diziam que era impossível fazer uma convergência para uma candidatura cidadã: foi antes da nossa Convenção de 31 de janeiro. Ainda sou do tempo em que diziam que não valia a pena introduzir uma novidade no panorama partidário português. E, no entanto, aqui chegámos.

A nossa missão é muito simples: cada descrença terá a sua resposta. Com cada passo sincero, com cada realização e conquista, esta candidatura cidadã irá aparecendo como a principal razão para acreditar que a política em Portugal pode mudar.

Onde há um impossível, arregaçar as mangas. E só agora começámos.

Falta muito a fazer. As próximas eleições serão, com a nossa determinação, o ponto de viragem de que Portugal necessita — e Portugal passará a fazer parte da viragem de que a Europa necessita. Isso, neste momento, só se garante com uma votação robusta nesta candidatura. Quem até aqui fez diferente dá mais garantias de que fará diferente após as eleições: com mais abertura, mais diálogo, com um espírito mais construtivo e inovador.

No dia a seguir às eleições, esta candidatura cidadã transforma-se em legislatura cidadã. Também durante o mandato traremos os nossos concidadãos para o centro dos debates mais decisivos sobre o futuro do país, de forma ampla e responsabilizada. Comprometo-me pessoalmente para que assim seja — nunca acreditei nos “impossíveis” da política portuguesa e sei que, se demonstrarmos o quão frágeis eles são, desaparecerão mais depressa do que pensamos.

Eu sou do tempo em que se diz que é impossível governar à esquerda em Portugal. Sou do tempo em que se diz que é impossível mudar a Europa. Sou do tempo em que se diz que não há alternativas à austeridade. Sou do tempo em que se diz que temos de nos conformar com a perda de direitos, a precariedade e o regresso da pobreza. Somos todos desse tempo.

Mas, com a força de todos, em breve seremos do tempo em que tudo isto se há de levar de vencida. Em que um grupo parlamentar saído desta candidatura apresentará as propostas da Agenda Inadiável: no desendividamento das pessoas, no combate às desigualdades, na expansão dos direitos fundamentais.

Seremos do tempo em que políticas implementadas por nós aumentarão o salário mínimo e diminuirão propinas, introduzirão um sistema fiscal mais progressivo, ampliarão as formas de financiamento da segurança social. Seremos do tempo em que a identificação de áreas de especialização para o nosso país e a aposta permanente na incorporação de conhecimento trarão mais dinamismo à nossa economia e atrairão de volta muitos dos que agora tiveram de sair. Seremos do tempo em que uma sociedade civil mais alerta e responsabilizada ajudará a preservar o estado de direito e combater a corrupção e a captura do estado por interesses privados.

Seremos do tempo — mais próximo do que se pensa — em que as nossas ideias entrarão no Conselho Europeu e em que começaremos a construir as alianças necessárias para que elas sejam vitoriosas. Do tempo em que as nossas leis na União Europeia não serão aprovadas por embaixadores mas por representantes eleitos no nosso parlamento. Do tempo em que o nosso governo não irá negociar às cimeiras europeias sem ter claramente definido um mandato na Assembleia da República.

Seremos desse tempo, por uma simples razão: porque faremos esse tempo. A melhor garantia de futuro é fazer acontecer. A transformar o país e a sua política dedicaremos todas as nossas forças — e para que eu possa continuar a dedicar todas as minhas forças a este projeto da forma mais eficaz peço que multipliquem comigo o vosso apoio.

Monocultura

Não está em causa, como digo, a afeição que muito de nós temos pelos nossos clubes de futebol. O que está em causa é ter passado a ser natural quatro deputados da nação comentarem em exclusivo durante uma hora a atualidade desportiva, num programa de jornalismo não-desportivo, como se a instituição parlamentar não nos devesse também um pouco de consideração.

Quando era miúdo fui a um treino de captação no meu Benfica e ainda me lembro das duas vezes que toquei na bola. Infiltrava-me no estádio, com o meu primo, para ver jogos de borla. A paixão estendia-se ao hóquei em patins e às idas ao velho pavilhão da Luz.

Continuo a gostar muito de futebol, e a zombar de críticas pseudo-intelectualizadas ao futebol. Mas há limites para tudo.

Precisamente porque gosto muito de futebol, evito judiciosamente ver programas sobre futebol. É uma manha pessoal e intransmissível, não uma prescrição para o coletivo. Se há pessoas que querem ver gente a falar sobre futebol, e televisões que transmitem horas seguidas desses debates, posso viver com isso.

O problema é quando a coisa extravasa, e foi isso que aconteceu na semana passada. Continuar a ler ‘Monocultura’

Um novo velho debate

Hoje que os estados são de novo realidades mais fluidas, o velho debate está a voltar. E a fazer as inevitáveis divisões: além de esquerda e direita, libertário e autoritário, há que saber: localista ou cosmopolita?

Há quem acrescente à tradicional divisão da política em esquerda e direita uma segunda divisão: libertário ou autoritário. Teríamos assim uma esquerda libertária e uma esquerda autoritária, bem como uma direita libertária e uma direita autoritária — tese que se verifica em muita gente que a gente conhece.

Os últimos anos levam-nos a acrescentar uma terceira distinção: localista ou cosmopolita. O localista pode vir em várias versões: nacionalista ou nativista, xenófobo ou patriótico, regionalista ou municipalista. Umas são mais simpáticas, outras mais desagradáveis. O cosmopolita também pode vir em várias versões: internacionalista ou europeísta, federalista ou globalista, multiculturalista ou altermundialista. Esta divisão, que muitas vezes depende de questões de gosto ou temperamento, ainda não está muito estabilizada. Assim sendo, ela percorre várias famílias políticas: para dar um exemplo não muito corrente, há ecologistas mais localistas (principalmente preocupados com a preservação de redes locais de abastecimento, por exemplo) e outros mais cosmopolitas, preocupados com a construção de movimentos contra o aquecimento global. Continuar a ler ‘Um novo velho debate’