É preciso dizer alto e bom som: isto não é um jogo. Estamos a falar da vida e dos futuros de uma união monetária com 300 milhões de habitantes, numa União e num continente com mais de 500 milhões de pessoas. Estamos a falar da melhor hipótese de prosperidade partilhada, democracia e direitos fundamentais que construímos após os horrores indizíveis das guerras europeias. Brincar aos ultimatos neste continente é — não digo já de uma suprema irresponsabilidade, mas mais do que isso, de um dolo imperdoável. Havia na paz de Versailles, após a primeira Guerra Mundial, um par de homens a quem chamaram “gémeos celestiais”. Eram um juiz e um banqueiro, ambos lordes ingleses, cuja missão era a de espremer a Alemanha, como então se disse, “até ela guinchar”. Ora, ficou registado que os dois lordes andavam sempre com um sorriso beatífico, em particular quando se podiam escudar num qualquer regulamento ou termo contratual para arruinar a Alemanha nas gerações seguintes sem perturbarem a sua consciência de estar a fazer o melhor “pelo contribuinte britânico”. A Alemanha foi arruinada, chegou uma nova guerra, e o contribuinte britânico acabou por ter de contribuir com os seus filhos para o campo de batalha.