Os deputados e deputadas da comissão parlamentar levaram a sério o seu trabalho, dignificaram a Assembleia da República e honraram-se a si mesmos. O país seguiu ontem as audições parlamentares aos dois primos e banqueiros do Espírito Santo — uma espécie de maratona em estafeta na qual os dois corredores se detestam. À hora a que escrevo, José Maria Ricciardi ainda responde às perguntas dos deputados, depois das mais de dez horas de interrogatório a Ricardo Salgado. Para digerir tudo isto vamos precisar de um longo relatório, um par de romances, meia dúzia de livros de não-ficção e, provavelmente acima de tudo, uma ópera. No estilo ópera do malandro. A grande família, o poder, o dinheiro, as desavenças e o fiasco final. Um tenor fará de Ricardo Salgado, fleumático, composto, envolvendo o seu discurso numa cuidadosa teia verbal. Um barítono fará de José Maria Ricciardi, sanguíneo, intempestivo, dando erros de português enquanto as suas palavras se atropelam para sair. E seria injusto não incluir o coro parlamentar.