É ridículo combater a evasão fiscal com carros sorteados por faturas de cabeleireiro, quando as multinacionais fogem com todo o dinheiro que entendem por cima das nossas cabeças — e mesmo as grandes empresas nacionais o fazem através da Holanda. A corrupção contribui para a corrosão, ou seja, o minar da credibilidade das instituições públicas. Mas a corrosão não se dá apenas por efeito de crimes, ou atos ilegais. Vamos voltar aqui a um dos grandes escândalos morais dos dias de hoje, emblematizado pelo caso Luxleaks. É tudo perfeitamente legal. Alguns países europeus — por acaso, entre eles aqueles que exigem austeridade aos outros para que equilibrem as contas — organizam-se com as multinacionais para, por debaixo da mesa, roubar aos outros os impostos sobre as transações que se realizam no território das vítimas. É claro, “roubar” e “vítimas” são palavras aqui usadas com certo risco: se é tudo legal, não há roubo, e se não há roubo não há vítimas. Mas então que chamar às centenas de milhares de milhões de euros que já se comprovou que saem dos nossos países em direção, pelo menos, ao Luxemburgo, para que não paguem impostos? Se há razão para minar a credibilidade da União Europeia, é esta.