Terra incognita

Estava fora do país quando soube da detenção de Sócrates, e tive no sábado de manhã um primeiro indício do que isto pode provocar a um país ao tentar responder às perguntas de estrangeiros sobre o que se estava a passar em Portugal. Há uma carga injusta de humilhação e vergonha que só será ultrapassada se o país, as suas instituições, os seus magistrados, os seus políticos, os seus jornalistas e os seus cidadãos souberem ser exemplares. Tenho saudades do tempo em que sorria ao ler outros cronistas escrever sobre o fim do regime. Sorria porque os achava exagerados, e hoje eu uso as mesmas palavras esperando estar a exagerar. Mas não há como minimizar o que se passou este fim-de-semana. A detenção e interrogatório do ex-primeiro ministro José Sócrates, com o tipo de suspeitas de que ele é alvo, põem um enorme peso sobre o sistema político e o sistema judicial. Muito dificilmente sairá incólume um, ou o outro, ou ambos. Entramos em terra incógnita. As frases começam todas por se: “se isto for verdade”, diz-se, “se isto não for verdade”, acrescenta-se — e assim será durante algum tempo ainda.

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