Sophia de Mello Breyner Andresen não foi só uma das maiores escritoras da língua portuguesa contemporânea. Foi ela quem mais perto esteve de um ideal clássico da poesia: o da realização material das palavras. Quando tinha quinze anos, passei um Verão trabalhando como guia turístico no Panteão Nacional quatro dias por semana (ao quinto, ia para São Vicente de Fora), num grupo de adolescentes em “ocupação de tempos livres”. Com as gorjetas comprávamos discos de vinil na Feira da Ladra. Com o salário, comprei uma bicicleta. Ao fim da tarde acontecia-me subir a colina da Graça, pela travessa das Mónicas, junto à Vila Sousa, até ao miradouro. Não sabia que ali morava Sophia de Mello Breyner.