A luta entre turcos tem consequências para nós todos. A Turquia é o país onde as conspirações imaginárias têm tanto poder quanto as reais. A partir de certa altura, já ninguém sabe quais são umas e quais são as outras. Ainda me lembro quando me falaram pela primeira vez dos gülenistas. Parecia uma coisa de um romance de aventuras. Uma sociedade secreta comandada por um teólogo que vivia em recolhimento no estado da Pensilvânia, nos EUA, mas que dominava milhares de escolas, colégios e centros de explicações — e através deles posicionava os seus acólitos em todos os lugares de poder, tanto no “estado real”, como no “estado profundo”. Esta do “estado profundo” era outra digna das melhores séries de ação e suspense. Todos os turcos garantem que existe um estado paralelo, oculto, para lá da superfície do que é dado ver ao cidadão comum. A discordância começa em saber quão profundo é, que setores afeta (o exército, o judiciário, a polícia?) e quem o domina. E há mais. Ergenekon, por exemplo: terá sido uma conspiração dos militares para derrubar o governo, ou uma invenção do governo para manietar os militares? E há mais, muitas mais conspirações ainda: religiosas e laicas, esquerdistas e direitistas, étnicas e nacionalistas. Ainda assim, há que admitir que poucas eram tão difíceis de aceitar como a história dos gülenistas. A sério?