Não é só que Medeiros Ferreira vai fazer falta. É que fazem falta mais pessoas como ele, à esquerda e à direita, nos Açores e no continente, homens e mulheres, novos e velhos. Às vezes eu encontrava Medeiros Ferreira num debate e fazia para que saíssemos juntos. Aconteceu dar-lhe boleia para casa num par de ocasiões. A conversa começava sempre da mesma maneira: com a nota baixa que ele me deu num teste de História Política e das Instituições (do século XX) por uma fraca resposta minha a uma pergunta dele sobre as Nações Unidas. Foi merecida a nota, afirmava eu. Que exagero, foi certamente uma injustiça, retorquia ele. Serve esta história para concluir que, ao menos numa discussão com Medeiros Ferreira, quem teve razão fui eu. Mas serve para mais algo, é claro. Para dar uma ideia da cortesia e sentido de humor com que Medeiros Ferreira tratava os ex-alunos e, imagino eu, todas as pessoas. Jamais se pensaria que no banco do lado, enquanto descíamos a Rua da Escola Politécnica, estava o inventor dos “três Ds” que viriam a ser as linhas diretrizes da Revolução do 25 de Abril — Democratizar, Desenvolver, Descolonizar (originalmente ele tinha acrescentado “socializar”). Ali não ia um senador da República; ia um sonhador da República.