Arquivo mensal para Março, 2014

A Europa e o refascismo

Uma democracia que não acredite no futuro pode bem acabar por não o ter.

Quando se pensa no fascismo, os países que vêm normalmente à cabeça são a Itália, em certo sentido a Alemanha, também Portugal e a Espanha. A certa altura dos anos 30 e 40, regimes aparentados ao fascismo dominavam no continente europeu, em particular no Leste, onde estavam na Polónia e na Eslováquia, na Hungria e na Roménia. Em 1936, apenas, a Frente Popular deteve a chegada do fascismo à França e é talvez por isso que não pensamos muito na França quando pensamos no fascismo.

E no entanto, foi na França que durante o meio século anterior foram germinando as sementes de ideias que depois ganhariam esse nome. Continuar a ler ‘A Europa e o refascismo’

A melancolia do patriota

Medeiros Ferreira em sua sala de trabalho (Lisboa) / Foto: Tiago Miranda / Expresso, 28.07.2012

Não é só que Medeiros Ferreira vai fazer falta. É que fazem falta mais pessoas como ele, à esquerda e à direita, nos Açores e no continente, homens e mulheres, novos e velhos.

Às vezes eu encontrava Medeiros Ferreira num debate e fazia para que saíssemos juntos. Aconteceu dar-lhe boleia para casa num par de ocasiões. A conversa começava sempre da mesma maneira: com a nota baixa que ele me deu num teste de História Política e das Instituições (do século XX) por uma fraca resposta minha a uma pergunta dele sobre as Nações Unidas. Foi merecida a nota, afirmava eu. Que exagero, foi certamente uma injustiça, retorquia ele. Serve esta história para concluir que, ao menos numa discussão com Medeiros Ferreira, quem teve razão fui eu.

Mas serve para mais algo, é claro. Para dar uma ideia da cortesia e sentido de humor com que Medeiros Ferreira tratava os ex-alunos e, imagino eu, todas as pessoas. Jamais se pensaria que no banco do lado, enquanto descíamos a Rua da Escola Politécnica, estava o inventor dos “três Ds” que viriam a ser as linhas diretrizes da Revolução do 25 de Abril — Democratizar, Desenvolver, Descolonizar (originalmente ele tinha acrescentado “socializar”). Ali não ia um senador da República; ia um sonhador da República. Continuar a ler ‘A melancolia do patriota’

Três para o caminho

O sistema partidário português está doente. O voto da semana passada sobre a co-adoção limitou-se a reforçar este diagnóstico.

Há uns anos em Moscovo, fiquei a saber que quem chega atrasado a um encontro deve pagar três copos de vodka a quem foi obrigado a esperar. Chegando atrasado às notícias da semana passada, divido a crónica de hoje em trêsbreves.

***

A troika é, sim, ilegal. De várias formas: porque não teve base legal para a sua formação, porque se arrogou de poderes de decisão que ninguém lhe poderia ter dado, porque atropelou direitos e legitimidades nos países onde estabeleceu a sua jurisdição.

Acima de tudo, a troika estava contaminada por um pecado original, um conflito de interesses insanável. Continuar a ler ‘Três para o caminho’

70×7

A direita europeia, que tanto quis consagrar a herança cristã na construção da União Europeia, talvez pudesse reconhecer ao menos as palavra de Jesus a Pedro, quando este, no Evangelho de São Mateus, lhe pergunta se haveria de perdoar sete vezes: “sete vezes, não — mas setenta vezes sete”.

O primeiro-ministro descreveu como irresponsável um manifesto assinado por setenta economistas, patrões, sindicalistas, políticos e ex-governantes, todos defendendo a reestruturação da dívida portuguesa como condição sine qua non para que a economia possa crescer. Passos Coelho não tem razão. Ele considera que os signatários do manifesto pecam por excesso. No máximo, eles pecariam por defeito. Mas é um pecado menor.

O único problema do manifesto é ser de setenta portugueses, e não de setenta vezes sete, que poderiam ser portugueses, gregos, irlandeses, cipriotas, italianos, espanhóis e — porque não? — alemães.

Nesse manifesto pan-europeu com que sonho, dir-se-ia a mesma coisa, mas multiplicada: Continuar a ler ’70×7′

A paixão de Fernando Pessoa

Nessa Europa ainda estranhamente calma, a poucas semanas de se desequilibrar na Grande Guerra (que lhe daria “O menino de sua mãe”), Fernando Pessoa passou a sua ansiedade da influência a todos os escritores de língua portuguesa que lhe sucederam.

Harold Bloom, um estudioso da literatura, escreveu uma vez um livro chamado “A Ansiedade da Influência”, no qual lidava com a tensão entre o grande escritor e o escritor ainda maior. Para pôr as coisas em termos simples, o grande escritor que admira o escritor ainda maior passa pela tal “ansiedade da influência”, a admiração torna-se inveja, a inveja emulação, a emulação frustração, a frustração afastamento, e o afastamento (nos melhores dos casos) superação. Os maiores dos grandes escritores pairam como uma sombra sobre todos os outros: todo o escritor de língua inglesa vive na ansiedade da influência de Shakespeare (ou na sua rejeição), como o russo sob (ou contra) Tolstoi, etc.

Faz por estes dias cem anos, Fernando Pessoa encontrava a sua forma de escapar à ansiedade da influência, e de sair dela por cima. Continuar a ler ‘A paixão de Fernando Pessoa’

Cenários da crise

Se acham que isto é mau, pensem que ao menos não temos o quarto cenário: o nuclear. A Ucrânia tinha o terceiro maior arsenal nuclear do mundo, herdade da URSS, mas devolveu-o em troca da sua integridade territorial.

Quais são as opções daqui para a frente?

Um primeiro cenário é relativamente curto e benigno. Não chega a haver derramamento de sangue entre russos e ucranianos na Crimeia, nem invasão em larga escala de território ucraniano. Tanto a Rússia como os EUA e a UE conseguem salvar a face. No caso de Putin, porque as tropas que estão a ocupar a Crimeia não são assumidas diretamente como fazendo parte do exército regular russo. No caso de Obama e dos europeus, porque após esta rápida escalada há um desinvestimento na conflitualidade. Para compor as coisas, o novo governo ucraniano é levado a fazer concessões linguísticas e a conceder mais auto-governo às regiões russófonas. Toda a gente recobra os sentidos e entende que não podemos ter, em pleno século XXI, uma crise típica do século XIX. Para isso terá ajudado o tombo que deram os mercados nos últimos dias e a interdependência entre os líderes da Rússia e da União Europeia. O mundo acorda deste mau pedaço como quem se tivesse embebedado na noite anterior e agora não tenha mais do que encarar a ressaca.

O ponto de partida do segundo cenário é Continuar a ler ‘Cenários da crise’

Sigamos em frente!

O progresso é um processo contraditório e tem os seus zigue-zagues, mas às vezes faz-se. Há um ano entreguei à Comissão Parlamentar Especial contra o Crime Organizado, a Corrupção e o Branqueamento de Capitais um documento temático sobre lavagem de dinheiro no qual, entre outras medidas, se pedia um registo público de “beneficiários finais” de ativos, para impedir que os branqueadores de capitais se escondem através de empresas fictícias. Hoje o Parlamento Europeu aprovou quatro relatórios (fui relator-sombra num deles) em que esse registo passou a fazer parte da proposta de lei em curso. Falta convencer os estados-membros. Mas foi dado um bom passo na direção do combate ao dinheiro sujo e à evasão fiscal na Europa. Sigamos em frente!

 

O traumatismo ucraniano

A segunda nota é sobre a resposta da UE e dos EUA. É evidente que Putin quer punir a Ucrânia por esta ter escolhido o “Ocidente”. Como quem diz: podes sair de casa, mas eu fico com o que eu quiser. Do lado ocidental, a escolha é entre uma nova guerra fria — congelar os laços com a Rússia — ou uma nova guerra quente que ninguém quer imaginar. 

Não gosto nada quando isto acontece. Na semana passada escrevi uma crónica sobre a Ucrânia, chamei-lhe “Já basta uma tragédia” (a outra é a Síria) e, quando o enviei, fiquei com a sensação de que tinha sido alarmista. Hoje dá a sensação de que afinal pequei por defeito e não por excesso.

Três notas sobre o que se está a passar na Crimeia.

A primeira é a histórica. Continuar a ler ‘O traumatismo ucraniano’

E que tal umas propostas a sério sobre a UE?

Clique para uma imagem looooonga.

A dimensão cooperativa

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Boys Climbing a Tree, 1791-1792
by Francisco de Goya

Vivemos num mundo inflamado em competição. Justificou-se essa competição com o argumento de que ao competir todos ficaríamos melhores. Esquecemos que para ser melhores precisamos uns dos outros.

Na semana passada, à hora de embarcar para um colóquio universitário sobre democracia, passo pela livraria do aeroporto e vejo um livro que me chama a atenção. O autor é um sociólogo aparentemente bastante conhecido e o assunto do livro é a cooperação, ou melhor, a política e a sociologia da entreajuda.

Sento-me na cadeira designada, o avião levanta voo, começo a ler. O primeiro capítulo é sobre questões de cortesia e polidez. O autor descreve como as sociedades contemporâneas se tornaram em muitos casos agressivas e mesmo cruéis, com indivíduos isolados respondendo a estímulos de competição exacerbada. Aquilo que é “bullying”, ou humilhação agressiva, entre crianças e adolescentes, torna-se em “bullying” político e cultural entre adultos, tão conhecido das redes sociais. A falta de cortesia de alguns indivíduos origina o fechamento dos outros e a perda é de nós todos, em incapacidade de auto-realização e de trabalho conjunto das sociedades.

Chegado ao colóquio, Continuar a ler ‘A dimensão cooperativa’