Um deputado que admite dar mais peso à escolha do seu nome para a próxima lista do que aos direitos dos cidadãos que representa não está a fazer nada no parlamento. Não venham dizer que o sistema os obriga a votar contra a sua consciência. Ninguém está obrigado a ter medo de perder o lugar na lista. É esse medo que faz dos representantes meros funcionários e que deixa a democracia portuguesa subdesenvolvida. Desta vez o cerne do problema político português ficou à vista de todos e não há como o negar. Como escrevi aqui muitas vezes, o partidismo está asfixiar o parlamentarismo. Com fita de seda. Mas falta pouco para o matar. A Assembleia da República aprovou um referendo iníquo que porá a maioria a decidir sobre os direitos de uma minoria. Pode acontecer: não temos de concordar sempre com todas as decisões do parlamento. Mas o que aconteceu na passada sexta-feira é que a Assembleia da República aprovou esse referendo quando a maioria dos seus deputados estavam contra: de acordo com as suas declarações de votos, a proposta do referendo teria sido derrotada facilmente. Lamento dizer isto, mas os deputados que votaram contra a sua consciência fizeram-no apenas para manter um lugar nas listas de deputados. É uma evidência desagradável, mas uma evidência. E, ao fazê-lo, foram maus deputados. Um deputado que vota contra a sua consciência, numa questão de direitos dos cidadãos, para não desagradar à direção partidária que fará as próximas listas de deputados é um deputado que subverte o espírito da democracia parlamentar. Pode ser um militante leal do partido, mas é um mau representante dos cidadãos.