Se a França se tomasse simplesmente como um país da União, entre outros, teria muito mais poder. Em muitas ocasiões conseguiria coordenar a posição de todos os que não são a Alemanha. Mas de cada vez que a França pretende mandar na União como “casal franco-alemão”, a realidade foge-lhe da vista mais depressa do que o café se pirava da cafeteira de Luís XV. No tempo em que a França tinha reis e em que os reis de França tinham amantes, Luís XV foi seduzido pela beleza de uma plebeia de nascença chamada Jeanne Bécu, a quem um casamento forjado dera o título nobiliárquico de madame la Comtesse du Barry, e cuja reputação foi fixada por folhetos clandestinos que se vendiam aos milhares por toda a Europa, e que causavam escândalo pelo tom supostamente informal com que a condessa tratava o rei na intimidade. A história que ficou na memória coletiva é a de quando o rei ia visitar a amante aos seus aposentos e se divertia com uma coisa tão prosaica quanto preparar o seu próprio café. Foi num desses dias que, ao ver que o rei se distraía e o café extravasava da cafeteira, a Condessa du Barry lhe lançou um alerta que ficou na história: “Hé, la France: ton café fout le camp!”. O problema não estava só a insinuação de que a amante trataria o rei simplesmente como “o França”, mas também a interpretação que logo se adicionou ao episódio de que ela zombaria do rei pela perda das colónias francesas no fim da Guerra dos Sete Anos. E foi assim que dizer “oh França, o teu café pirou-se” se tornou na forma mais fácil de resumir a ideia de que, enquanto os poderosos de França estão distraídos, a realidade à sua volta muda. ***