Arquivo mensal para January, 2014

Atacaram o Portugal futuro

Este governo, decididamente, está a deixar obra para lá do seu mandato. Não quer só destruir o país agora. Quer deixá-lo sem possibilidades de se reconstruir depois.

Este governo, decididamente, está a deixar obra para lá do seu mandato. Não quer só destruir o país agora. Quer deixá-lo sem possibilidades de se reconstruir depois.

Em três anos, deve haver poucas coisas que escapem à sanha empobrecedora deste governo. Àquelas a que o memorando da troika não obriga lá chegarão eles certamente. É essa a diferença entre um governo de incompetentes e um governo de fanáticos. E que jeito nos dava agora um governo que fosse só de incompetentes.

É pois perfeitamente adequado que a última vítima do governo tenha sido o investimento em ciência. Porque não? Uma das poucas coisas que se poderia atravessar no caminho da estratégia do governo seria a possibilidade de uma economia portuguesa mais especializada, produzindo mais valor, fixando mais conhecimento e exportando melhor. Não é isso que o governo quer. Vou até mais longe. O governo quer o contrário disso: o governo quer uma economia de baixos salários, comprimidos pelo desemprego alto, e produzindo barato para exportar mais (mas não melhor), um país a meio-gás para recursos a meio-gás, e tudo isto complementado por serviços públicos a quem se apertou o torniquete. Continuar a ler ‘Atacaram o Portugal futuro’

Disciplina vergonhosa

Um deputado que admite dar mais peso à escolha do seu nome para a próxima lista do que aos direitos dos cidadãos que representa não está a fazer nada no parlamento. Não venham dizer que o sistema os obriga a votar contra a sua consciência. Ninguém está obrigado a ter medo de perder o lugar na lista. É esse medo que faz dos representantes meros funcionários e que deixa a democracia portuguesa subdesenvolvida.

Desta vez o cerne do problema político português ficou à vista de todos e não há como o negar. Como escrevi aqui muitas vezes, o partidismo está asfixiar o parlamentarismo. Com fita de seda. Mas falta pouco para o matar.

A Assembleia da República aprovou um referendo iníquo que porá a maioria a decidir sobre os direitos de uma minoria. Pode acontecer: não temos de concordar sempre com todas as decisões do parlamento. Mas o que aconteceu na passada sexta-feira é que a Assembleia da República aprovou esse referendo quando a maioria dos seus deputados estavam contra: de acordo com as suas declarações de votos, a proposta do referendo teria sido derrotada facilmente.

Lamento dizer isto, mas os deputados que votaram contra a sua consciência fizeram-no apenas para manter um lugar nas listas de deputados. É uma evidência desagradável, mas uma evidência. E, ao fazê-lo, foram maus deputados. Um deputado que vota contra a sua consciência, numa questão de direitos dos cidadãos, para não desagradar à direção partidária que fará as próximas listas de deputados é um deputado que subverte o espírito da democracia parlamentar. Pode ser um militante leal do partido, mas é um mau representante dos cidadãos. Continuar a ler ‘Disciplina vergonhosa’

Oh França, o teu café pirou-se

Le Sacre de Louis XV – Photo RMN-Grand Palais (Château de Versailles) / Gérard Blot

Se a França se tomasse simplesmente como um país da União, entre outros, teria muito mais poder. Em muitas ocasiões conseguiria coordenar a posição de todos os que não são a Alemanha. Mas de cada vez que a França pretende mandar na União como “casal franco-alemão”, a realidade foge-lhe da vista mais depressa do que o café se pirava da cafeteira de Luís XV.

No tempo em que a França tinha reis e em que os reis de França tinham amantes, Luís XV foi seduzido pela beleza de uma plebeia de nascença chamada Jeanne Bécu, a quem um casamento forjado dera o título nobiliárquico de madame la Comtesse du Barry, e cuja reputação foi fixada por folhetos clandestinos que se vendiam aos milhares por toda a Europa, e que causavam escândalo pelo tom supostamente informal com que a condessa tratava o rei na intimidade.

A história que ficou na memória coletiva é a de quando o rei ia visitar a amante aos seus aposentos e se divertia com uma coisa tão prosaica quanto preparar o seu próprio café. Foi num desses dias que, ao ver que o rei se distraía e o café extravasava da cafeteira, a Condessa du Barry lhe lançou um alerta que ficou na história: “Hé, la France: ton café fout le camp!”. O problema não estava só a insinuação de que a amante trataria o rei simplesmente como “o França”, mas também a interpretação que logo se adicionou ao episódio de que ela zombaria do rei pela perda das colónias francesas no fim da Guerra dos Sete Anos. E foi assim que dizer “oh França, o teu café pirou-se” se tornou na forma mais fácil de resumir a ideia de que, enquanto os poderosos de França estão distraídos, a realidade à sua volta muda.

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