Mandela preferiu ser amado a ser temido. Teve o poder absoluto, e não foi minimamente corrompido por ele. Foi aquilo que era. Toda a gente sabe porque gosta de Mandela. Mas, mesmo que fosse possível ler os milhares de textos que sobre ele se escreveram nos últimos dias, seria difícil entender o porquê do porquê. A minha hipótese: Mandela violava as principais regras da cultura política dominante. Por isso, mais do admirá-lo enquanto político que conseguiu coisas boas, adorámo-lo como algo mais do que isso. Curiosamente, este é um daqueles casos em que as banalidades se aproximam muito mais de nos conseguir explicar qualquer coisa do que os contrariadores de banalidades. Vocês sabem do que eu estou a falar. É natural, em ocasiões destas, que se digam muitos lugares-comuns. E é natural, depois, que apareça gente rezigando com os lugares-comuns. Vasco Pulido Valente, nestas páginas, protestava com o facto de não se ter dito que Mandela era advogado ou que pouco se tenha falado do contexto da queda do Muro de Berlim, “trivialidades que, parecendo que não”, etc.. Ora, parecendo que sim, essas trivialidades acrescentam mas não aprofundam. Quantos políticos foram ou são advogados? Quantos viveram durante a queda do Muro de Berlim? Tenho impressão que noventa e nove por cento de todos os políticos atuais.