Arquivo mensal para December, 2013

Um presente para Alexandre?

Eu quero o contrário de uma democracia musculada. Eu quero o contrário de uma amálgama entre os dois maiores partidos. Eu quero o contrário de um acordo negociado sem ninguém ver.

O que se dá a um homem que já tem tudo? Alexandre Soares dos Santos, um dos donos de uma obscura companhia holandesa chamada Francisco Manuel dos Santos BV, que por sua vez recebe os dividendos e mais-valias das companhias portuguesas Jerónimo Martins e Pingo Doce, não tem dúvidas: ele quer um governo do PS e do PSD, “com um acordo a 10 anos”, feito “à mesa, confidencialmente, sem ninguém ver”, no qual “a revisão constitucional é fundamental”. Este é opresente de Natal que Alexandre Soares dos Santos quer no sapatinho pois, como ele diz, “não podemos é estar constantemente a mudar quando há eleições”. Porque a nós, portugueses, faz-nos falta “uma democracia musculada”.

Do alto desta página de jornal, quero agradecer a Alexandre Soares dos Santos a entrevista que deu ao Jornal de Negócios da passada segunda-feira. Estou-lhe muito grato. Coisas destas ajudam a clarificar as ideias. Sendo assim, também eu já sei o que quero para o Natal deste ano, e para os natais dos anos futuros: o contrário do que Alexandre Soares dos Santos quer. Continuar a ler ‘Um presente para Alexandre?’

Amigo da humanidade

Nelson Mandela

Mandela preferiu ser amado a ser temido. Teve o poder absoluto, e não foi minimamente corrompido por ele. Foi aquilo que era.

Toda a gente sabe porque gosta de Mandela. Mas, mesmo que fosse possível ler os milhares de textos que sobre ele se escreveram nos últimos dias, seria difícil entender o porquê do porquê.

A minha hipótese: Mandela violava as principais regras da cultura política dominante. Por isso, mais do admirá-lo enquanto político que conseguiu coisas boas, adorámo-lo como algo mais do que isso.

Curiosamente, este é um daqueles casos em que as banalidades se aproximam muito mais de nos conseguir explicar qualquer coisa do que os contrariadores de banalidades. Vocês sabem do que eu estou a falar. É natural, em ocasiões destas, que se digam muitos lugares-comuns. E é natural, depois, que apareça gente rezigando com os lugares-comuns. Vasco Pulido Valente, nestas páginas, protestava com o facto de não se ter dito que Mandela era advogado ou que pouco se tenha falado do contexto da queda do Muro de Berlim, “trivialidades que, parecendo que não”, etc.. Ora, parecendo que sim, essas trivialidades acrescentam mas não aprofundam. Quantos políticos foram ou são advogados? Quantos viveram durante a queda do Muro de Berlim? Tenho impressão que noventa e nove por cento de todos os políticos atuais. Continuar a ler ‘Amigo da humanidade’

Aprender com a experiência

Espero que os resultados do PISA possam ensinar duas coisas ao atual ministro da Educação. A primeira: deve educar-se para os alunos reais, e não para os preconceitos dos pais. A segunda: é preciso aprender com os erros, e corrigir.

Em Portugal há muita gente que acredita que se deve educar para os pais, e não para os filhos. Se o pai fez exame da quarta classe, deve fazer-se exame da quarta classe; se a mãe não usava calculadora, o filho não deve usar calculadora; se a avó decorava o dia todo, a neta deve decorar o dia todo. Durante algum tempo, as pessoas que assim pensam dominaram o debate público. Com este governo, chegaram ao poder. E agora está na altura de ver como se têm saído.

Uma bitola importante para estas coisas é a avaliação internacional PISA — sigla em inglês do Programa para a Avaliação Internacional de Estudantes — que de três em três anos avalia o desempenho de alunos de vários países em matemática, ciências e leitura. Apesar de todas as dificuldades inerentes aos estudos comparativos, o PISA está bem desenhado e tem reforçado a sua credibilidade de edição para edição. Quando saem os resultados é como se os países tivessem ido à escola, e de certa forma é verdade: no fundo, são os governos ou as políticas educativas que passam ou chumbam nestes testes. Não por acaso, o novo resultado do PISA, que foi divulgado ontem, foi notícia em jornais de todo o mundo.

Portugal não foi exceção. Continuar a ler ‘Aprender com a experiência’

Isto depende de nós

Não há razão para supor que à escala europeia as conquistas fossem dádivas caídas do céu. Isto depende de nós, muito mais do que se julga.

A formação de um governo alemão de “grande coligação” deu azo a uma série de declarações de óbito às pretensões da esquerda sobre a crise do euro e da União Europeia.

Deixemos então uma coisa clara: a direita ganhou as eleições alemãs. O governo alemão vai ser chefiado por uma chanceler de direita, com um ministro das finanças de direita, e com políticas maioritariamente de direita. Angela Merkel ganhou as eleições porque foi vista, pelo seu eleitorado, como defendendo os interesses do seu país sobre os interesses gerais europeus. Desde então não seria crível que o essencial da política alemã mudasse, e os parcos ganhos para os interesses dos países periféricos seriam sempre marginais: o desaparecimento dos anteriores parceiros de coligação, os liberais, ainda mais adversários da regulação da banca e de políticas monetárias expansionistas, e a imposição social-democrata de um salário mínimo alemão, o que permitirá o aumento do consumo e indiretamente de importações a partir da periferia. As eleições alemãs poderiam ter ajudado qualquer coisa, mas vão ajudar pouco ou nada.

Ponhamos, porém, as coisas nos seus verdadeiros termos: Continuar a ler ‘Isto depende de nós’

Tela ou janela?

O que não muda contudo, é o velho debate sobre se a tecnologia nos faz melhores ou piores. Por mais voltas que dê, esse debate corre o risco de ignorar uma coisa: o que deve em primeiro lugar fazer-nos melhores (esperemos) ou piores é uma coisa muito simples: nós mesmos.

Um novo livro chamado “A sociedade dos ecrãs”, coordenado pelo sociólogo Gustavo Cardoso à frente de uma equipa multidisciplinar, problematiza com alguma novidade as consequências das novas tecnologias na nossa vida, da economia à política, da cultura à sociabilidade. Tive a sorte de estar no lançamento, com José Magalhães e José Pacheco Pereira, e de voltar a alguns temas que me interessam como cidadão, e tenho impressão que sobretudo como historiador.

Desde a Antiguidade que há tecno-otimistas e tecno-pessimistas. Mesmo nas tecnologias que nos parecem mais admiráveis. Sócrates (o antigo) criticou a invenção da escrita: dizia ele que era possível desmentir um mentiroso que fala, mas nenhum interrogatório conseguirá mudar um escrito mentiroso, pois o texto que lá está, lá fica (“onde entra lixo só sai lixo”). Ou melhor, “dizia” Sócrates, porque, fiel aos seus princípios, ele não escreveu nada. Quem escreveu e pôs as palavras na sua boca foi Platão, o que leva à questão: e se a transcrição foi mentirosa? Nem um Sócrates moderno, não forçosamente desse nome, conseguiria desmentir um escrito de Platão. Continuar a ler ‘Tela ou janela?’

Entre dois mundos

Quanto à geração que há vinte anos viveu aquele momento, não sei se é hoje mais compreendida, até por si mesma.  É altamente formada mas ainda precária, desempregada, emigrada. Assistiu ao início do desfazer de uma ideia do bem público. Foi apanhada entre dois mundos.

Há vinte anos, feitos ontem, deu-se um momento de formação coletiva para algumas centenas de pessoas em frente à Assembleia da República. Eis a memória que tenho dele.

Estávamos numa das manifestações contra o aumento das propinas no ensino superior público. Não éramos muitos, mas estávamos dispostos a ficar. Depois de um primeiro momento de tensão com a polícia, um cordão de agentes impedia o acesso à escadaria do parlamento. Passámos horas no largo fronteiro a São Bento, às vezes gritando palavras de ordem, outras vez tentando fazer rir os polícias, a ver se a máscara da autoridade se lhes desfazia. E, ao fim da tarde, num momento de calma e sem provocação, a polícia carregou contra nós a uma só vez, provavelmente com ordens superiores para limpar a praça.

Corremos para onde foi possível; perdi-me do meu grupo de amigos e fui parar, não sei bem como, ao jardim do Quelhas. No chão estava deitada uma rapariga, contraída, sem conseguir respirar. Uma amiga dela tentava ajudá-la, outra gritava perguntando porque as tinham agredido à bastonada. Não creio que algum polícia as ouvisse. Elas estavam apenas incrédulas, como estávamos todos. O momento da carga policial desiludiu-nos enquanto geração. Por que razão éramos tratados assim? Continuar a ler ‘Entre dois mundos’