Pois não foi o estado social que debilitou o nosso corpo coletivo. Foi o conflito de interesses entre a finança privada e a governação pública. Essa é a verdadeira doença — e está a matar-nos. Nos meados do século XIX, o médico Carl Reinhold August Wunderlich conseguiu provar duas coisas: que a temperatura normal do corpo humano é de cerca de 37º e, mais importante, que a febre é um sintoma e não uma doença. Até então, a obsessão em acabar com a febre sem tratar das suas causas acabava muitas vezes por matar o paciente. Saltamos mais de um século até quarta-feira passada e temos uma crónica de João Miguel Tavares (olá, vizinho!) desafiando-me para um pingue-pongue à volta do caso dos contratos tóxicos que várias empresas públicas negociaram com bancos internacionais. As perdas potenciais até agora serão de cerca de três mil milhões de euros e, segundo dizia ontem este jornal, o estado ainda só conseguiu renegociar 14 dos 56 produtos tóxicos identificados, com pouco sucesso.