Ninguém assumia a paternidade ideológica da crise. “Aliás”, escrevia, “ninguém foi neoliberal. O neoliberalismo nunca existiu. Eram os deuses astronautas e a crise veio do espaço exterior.” Numa pesquisa pelo arquivo, vejo que uma das primeiras referências que fiz aos Credit Default Swaps foi numa crónica de setembro de 2009, assinalando o primeiro aniversário da falência do Lehman Brothers, que desencadeou um colapso do sistema financeiro e marcou o início da crise. O título era “Um ano e não tem pai”; o cerne do argumento era que ninguém assumia a paternidade ideológica da crise. Ninguém admitia ter acreditado nas propriedades auto-regulatórias do mercado, ninguém reconhecia ter defendido que o sistema financeiro anglo-saxónico era a oitava maravilha do mundo, ninguém confessava ter cedido ao canto da sereia neoliberal.