Vimos nos últimos dias como uma mobilização consciente e informada dos cidadãos produz vitórias decisivas. Serve para nos relembrar: este país pertence-nos, e em democracia os governos devem preservar essa verdade, ou estarão perdidos. A maior parte das pessoas lendo este texto viverão, espero eu, até Portugal completar novecentos anos como país independente, o que, dependendo da contagem, ocorrerá daqui a vinte anos e picos. A não ser que se façam grandes avanços na esperança de vida, será difícil que vejam o país atingir um milénio de independência — mas os seus filhos, ou pelo menos os filhos dos seus filhos, chegarão lá, se o país chegar também. É, se pensarmos bem, um acontecimento notável, tanto mais não há nada de inevitável nele. Portugal não nasceu com fronteiras naturais — e, nos primeiros tempos, nem sequer culturais ou linguísticas. A capital que tem hoje era, nos primeiros anos, uma cidade estrangeira. Só por acaso não foi absorvido por outros reinos peninsulares, nem — já menos por acaso — pela fusão de toda a península num só reino. Mesmo depois, em várias ocasiões poderia ter sido dividido, espartilhado ou ocupado permanentemente. Da Baviera à Sabóia e à Escócia, nem todos os outrora altivos reinos europeus podem dizer o mesmo. Embora geograficamente europeu,