Mentiras verdadeiras

“Dirás ao teu pai, o conde Tolstoi, que caíste. E que quem te levantou foi Fiodor Dostoievski.” Jantei uma vez na casa de um extraordinário russo, na Rússia. A conversa fazia-se num inglês fragmentário, mas expressivo. O seu interminável repertório de histórias subdividia-se em diversas categorias; às melhores ele chamava “true fake”, ou seja “mentiras verdadeiras”, que não eram sequer mentiras mas apenas tão boas que mereceriam sê-lo. Depois vinham as “fake fake”, que eram mentiras mesmo mentiras mas suficiente boas para merecerem ser verdade. Quando as histórias eram tristemente verdadeiras, o meu anfitrião encolhia os ombros, fazia uma cara quase de quem pede desculpas, dizia: “this, my friend, is true-true”. Verdade verdadeira, meu amigo; o mais baixo da escala. Os graus de importância eram pontuados com brindes de vodca. Os temas eram os absurdos da política e as grandes rivalidades literárias, em particular a de Tolstoi e Dostoievski. Os dois grandes escritores admiravam-se em público, invejavam-se em privado e desdenhavam-se no íntimo. Diz-se que uma pessoa pode tender a Tolstoi ou a Dostoievski, nunca a ambos. Os dois nunca se encontraram.

Read more
Skip to content