Mas não foi hoje, 1º de Maio, em frente à caixa do Pingo Doce, que começámos a ser mercadoria. Claro, o governo vendeu-nos como mercadoria quando permitiu que estes patrões usassem o estado como se fosse deles No século em que o 1º de Maio nasceu, o XIX, duas forças entrecruzadas, uma económica e a outra política, transformavam a sociedade. Na economia, essa força era a indústria, que dependia da criação de uma classe de milhões trabalhadores mais ou menos uniformizados para as suas fábricas, a que depois se chamou proletariado. Na política, com o fim do Antigo Regime, deu-se a descoberta que por debaixo dos grandes impérios europeus, ou fragmentadas em inúmeros feudos, existiam coisas a que se chamou nações. Mas vinda de trás, do século XVIII, havia uma ideia simples — a de que as pessoas, os homens e as mulheres, não precisavam de uma tutela superior para guiar os seus passos e mereciam ter condições para determinar a sua própria vida. A essa ideia chamou-se depois “emancipação”. A junção dessas duas forças poderosas e dessa ideia simples deu origem a uma realidade política muito mais criativa e paradoxal do que aquela que conheceríamos durante o século XX. O 1º de Maio é um bom exemplo disso