Arquivo diario para November 3rd, 2010

Noturno

Escrever é agora para mim um exercício de ouvido. O cérebro procura lembrar-se de como a língua pronuncia aquela palavra, tenta ouvi-la dentro da cabeça, para depois a poder escrever. Eu digo aquele “c” em espectador e aquele “p” em conceptual?

Naquele tempo era sempre festa. Bastava sair de casa e atravessar a rua para ficar como louco, e era tudo tão belo, especialmente de noite, que regressando mortos de cansaço esperava-se ainda que qualquer coisa acontecesse, que começasse um incêndio, que nascesse uma criança em casa, ou então que o dia nascesse de repente e toda a gente viesse para a rua e se pudesse continuar a andar a andar até aos campos e depois por detrás das colinas. — Sois sãos, sois jovens, — diziam eles, — sois rapazes, não tendes consciência, bem se vê —. E uma deles, aquela Tina que tinha saído manca do hospital e que não tinha de comer em casa, ainda assim ria por tudo e por nada, e uma noite, caminhando atrás dos outros, tinha parado de repente e pôs-se a chorar porque dormir era uma estupidez que roubava tempo à alegria. [Cesare Pavese, La bella estate, 1940-49]

Num dia do verão de 1952, um pianista de concerto interpretou pela primeira vez a peça de John Cage que consiste em quatro minutos e trinta e três segundos de silêncio. Ou seja, o pianista sentou-se em frente ao piano e não tocou nenhuma nota durante aquele tempo. A meio da peça começou a chover, e as gotas grossas batendo no telhado eram tudo o que se ouvia. No fim da peça houve gente que abandonou a sala e deixou claro o seu desagrado, vociferando contra o compositor, o intérprete, e o estado das coisas em geral. Achavam aqueles espectadores que aquilo a que tinham acabado de assistir era uma provocação, em mau (“uma merda”). Muitos críticos de arte acharam o mesmo, mas em bom (“conceptual”). Recentemente li outra explicação, mais simples: os quatro minutos e trinta e três segundos de silêncio de John Cage ensinavam que não havia silêncio — havia as gotas de chuva, os protestos do público — e eram como uma janela para o que estava por detrás.

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