Uma sinfonia de vuvuzelas

Quem quer cortar na despesa pública nunca se lembra de nos dizer como é que diminuirá a despesa privada. Há coisas que nunca vão pôr em risco a opinião de alguém. Uma delas: escrever que “é preciso cortar na despesa”. Posso escrevê-lo quando faz chuva, quando faz sol, quando faz vento e quando faz nevoeiro. Nunca parece mal, nunca parece pouco sério, é sucesso garantido. Em Portugal, então, deve haver um qualquer gene escondido que predispõe a nação para este discurso: nós portugueses nascemos sabendo que fizemos alguma coisa mal, apenas precisamos que alguém nos diga o que é e acreditaremos. Dizer que é preciso cortar na despesa tem até um efeito curioso. Isenta quem o disser de qualquer relação com a realidade, de qualquer preocupação com as consequências do que dizem, de qualquer necessidade de avaliar as circunstâncias e adaptar o discurso ao contexto. Diz-se que toda a gente tem de cortar nas despesas, e aplaudimos inclusive o corte nas despesas daqueles que nos compram coisas. Ao mesmo tempo, deseja-se que Portugal diminua as importações e aumente as exportações. Mas exportar para onde, se os outros cortam nas despesas?

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