As eleições locais têm uma lógica própria que não deve ser subalternizada pelas eleições nacionais — são demasiado importantes para isso. O Bloco de Esquerda levou a primeira grande lição da sua história de dez anos. Foi mesmo o principal derrotado das últimas eleições autárquicas (o CDS não conta porque praticamente nem foi a jogo). Isto é interessante. Mesmo as pessoas que gostam do BE e que acham que ele tem um papel essencial na política portuguesa — eu incluído — certamente não acham boa ideia que um partido tenha o crescimento por garantido, o que faria dele acrítico, teimoso e desatento. Uma derrota é uma coisa preciosa, e a sua lição não deve nunca ser desperdiçada. O próprio Bloco de Esquerda deveria sabê-lo bem, uma vez que é, de certa forma, filho de uma derrota — a do primeiro referendo do aborto, que precedeu e influenciou directamente a fundação do partido em 1999. Dez anos depois, tendo feito mais pela alteração do panorama político português do que provavelmente qualquer outro partido, e no fim de um ano brilhante em termos eleitorais, esta derrota vem no momento menos mau.