A notícia do dia

Ligaram-me de Portugal para dizer que a avó de Obama tinha morrido. Encontrei-me com uma amiga às portas do Art Institue of Chicago. Disse-lhe que a avó de Obama tinha morrido. As pessoas à nossa volta pediram-me para repetir. Horas depois, no autocarro, em conversa com uma pessoa que já trabalhou para a campanha de Obama, fui eu que lhe dei a notícia. E agora estou aqui a escrever sobre o assunto, horas depois de todos os jornalistas e bloggers em Portugal já terem escrito sobre isto. A pessoa que está mais perto da notícia já não é a que está mais perto da notícia — só a pessoa que está no lugar da notícia o é. Isto quer dizer que algumas coisas vão ter de mudar em relação à cobertura noticiosa de acontecimentos a milhares de quilómetros de distância. Para a imprensa escrita, tenho as minhas ideias, e tentei levá-las à prática nos dois textos que saíram no público de hoje. É que continua a valer a pena viajar milhares de quilómetros para observar um acontecimento. Mas não é, por assim dizer, por causa das notícias. É mais por causa das não-notícias. É preciso uma atenção especial para as não-notícias.

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Um tempo para tudo

Nas zonas pobres, vêem-se as casas entaipadas das pessoas que não conseguiram pagar a hipoteca. São uma ou duas por rua, como dentes cariados numa boca saudável, a parte visível de um mar de problemas. Chicago. — Mesmo numa crise, há pessoas sentadas em cafés e casais passeando pelas ruas (a mulher grávida de sete meses) e velhinhas dando de comer aos gatos. Mesmo em recessão há dias bonitos e sol e toda a gente parece feliz. A história é que nos engana, com o tempo, e acabaremos por atribuir a cada época traços de personalidade bem definidos, como se fossem personagens num romance. As fotografias a preto e branco fazem o resto: para nós os anos trinta foram de filas para a sopa dos pobres. Mas nos anos trinta também havia festas e jazz e gente que namorava ou frequentava os restaurantes.

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