Vitoriosos e inconsequentes

[Público 18 julho 2007]

Mas, por favor, poupem o eleitorado de esquerda a mais esta demonstração da inconsequência e sectarismo dos seus eleitos.

Suavizar uma derrota eleitoral é como tentar rebocar um monte de entulho. Pode sempre recorrer-se à argamassa cinzenta das justificações: que a abstenção, que os independentes, que a crise dos partidos, que as eleições locais, etc. Há comentadores que parecem ter acesso a um armazém inteiro disto. Mas não parece que sejam ouvidos pelos actores políticos no PSD e no CDS, que estão já entretidos no meio do monte de entulho, estraçalhando-o em pedaços de entulho cada vez menores.

A justificação de que eu mais gosto é: seja como for, a “esquerda” e a “direita” são irrelevantes nas Câmaras Municipais. Ah, sim? Olhemos então para a nova Câmara de Lisboa: a direita tem seis vereadores, a esquerda tem onze. Até digo mais: por muito tentador que seja bater na direita, deixemo-la respirar. Hoje há uma tarefa mais urgente e necessária: bater na esquerda.

Helena Roseta não está disponível para coligações e já repetiu que “os partidos têm de aprender que há mais vida para lá dos partidos”. Aparentemente, Helena Roseta não conhece outras frases na língua portuguesa para além de “há mais vida para lá dos partidos”. Nem que seja para pedir o café, que diabo.

Ruben de Carvalho já tinha avisado que o PCP teria pruridos em aliar-se, em Lisboa, ao partido que está no governo do país. Que novidade! Teria sido bem-vinda no tempo em que o PCP se aliou a Rui Rio, no Porto, em pleno governo de Durão e até de Santana Lopes.

E José Sá Fernandes exigiu a António Costa o cumprimento de um programa de seis pontos. Ora, por muito que simpatize com Sá Fernandes (até lhe dei o meu voto!) e possa concordar com os seis pontos em questão, houve uma coisa chamada eleições. Não foi o programa de Sá Fernandes que foi sufragado. Foi o de António Costa.

***

Não acreditem no que anda para aí a ser escrito: António Costa ganhou mesmo estas eleições. Tem pelo menos o dobro dos vereadores de qualquer outra lista. Como tal, o programa terá de ser maioritariamente o seu. O vereador do urbanismo, como é evidente, também. As restantes forças de esquerda, com cinco vereadores e 27% do eleitorado, têm a obrigação – a obrigação, note-se – de contribuir para um governo estável da cidade e de dar o seu melhor nos pelouros respectivos (Habitação, Helena? Cultura, Ruben? Espaços verdes, Zé?), porque é disso que Lisboa precisa e é isso que a maioria do eleitorado quis: 57% de votos no conjunto da esquerda, 84% em tudo menos Carmona. Como é evidente, os vereadores eleitos têm também o direito, até o dever, de não serem acríticos nem fecharem os olhos aos seus parceiros. Mas, por favor, poupem o eleitorado de esquerda a mais esta demonstração da inconsequência e sectarismo dos seus eleitos.

E que deve fazer António Costa? Governar com acordos pontuais uma cidade em estado de emergência? Apoiar-se em Carmona Rodrigues, que não faz quaisquer exigências, e com quem os acordos “pontuais” acontecerão sempre sem esforço? Grave erro. O abraço de Carmona é radioactivo e será condenado pelos lisboetas – para que serviram então as eleições? Pior: se fizer tal coisa, António Costa terá uma oposição de cinco vereadores à sua esquerda, três deles mediáticos, que lhe causarão muito mais dano político do que a direita será capaz de causar.

E depois há a política nacional. Já queimou bastante o PS aquele episódio dos manifestantes trazidos à carrada de Cabeceiras de Basto, a juntar a outros recentes. As pessoas estão irritadas e não há espaço para muitas avarias. O governo beneficia de uma direita atordoada mas descurou a sua base de esquerda; o eleitorado flutuante que lhe deu a vitória é por definição flutuante, até cada vez mais. Se António Costa se posicionar agora à frente de uma maioria de esquerda em Lisboa, estará acautelando o seu futuro político – perante a recomposição do espectro partidário que se avizinha.

2 Respostas a “Vitoriosos e inconsequentes”


  • A esquerda tem no seu gene a ambição de transformar a sociedade. Isso é um projecto de poder. É aí que se pode mudar em substância as coisas. O contrário é apenas jogar à defesa, para não perder – o resultado tem-se visto.
    É mais fácil – eleitorismo ou como hoje dizemos populismo – ficar de fora a criticar do que assumir as responsabilidades. Aparentemente a maior ambição dos dirigentes dos partidos de esquerda (a que agora se junta Helena Roseta) é simplesmente superar os outros em número de casos denunciados, de acções governativas (também municipais) que se consegue suspender (adiar), não se constituindo enquanto força alternativa construtiva.
    A esquerda e as sociedades modernas defendem a separação de poderes como fundamento da democracia. Estes dirigentes converteram os órgãos políticos (onde estão representados) apenas em órgãos de fiscalização e pré-judiciais.
    O que se revela novo – nas presidenciais e agora – é que o descontentamento já não induz apenas a abstenção, mas sim o voto na procura de soluções que não as dos directórios partidários, em suma, na busca de uma alternativa.
    O Bloco tem desde a sua existência negado a possibilidade de entrar na esfera governativa. Lamento.
    O PC, ao rejeitar estas coligações nega o que melhor tem: o seu património histórico – o trabalho unitário (seja nas autarquias, tenha sido nos sindicatos, etc). A Câmara de Lisboa (a cidade) teve o seu melhor momento na coligação PS/PCP. Lamento.
    Helena Roseta copia agora a estratégia (do PC e BE) que levou parte da esquerda que a repudia a votar nela. Absolutamente lamentável.
    Ainda não é desta que está iniciada uma alternativa aos directórios (inamovíveis) partidários.
    Em suma voltamos à pergunta de sempre: O que fazer?

  • Costa foi sufragado só por 29% dos lisboetas que foram ás urnas, e por isso terá que fazer concessões.

    Julgo que Sá Fernandes foi claro na noite das eleições, sim a alianças desde que Carmona e o PSD não façam parte da vereação, e isto foi claramente o que os lisboetas disseram, seis anos de direita já chegam.

    Agora vamos a questões concretas.

    Finanças da Camara , Costa tem uma proposta que o põe dependente do governo, Sá, Ruben e Roseta, têm alternativas, como todos querem sanear as contas, certamente que se poderá chegar a um consenso.

    Plano verde do Ribeiro Teles, aprovado ainda na vigência da última vereação, não vejo nenhum obsctaculo de monta á sua implementação.

    Transportes, julgo que todos estão de acordo na necessidade de valorizar o transporte publico, Roseta veio com a ideia de permitir a privados a possibilidade de terem carreiras em Lisboa, penso que não é por aí que passa o problema, e sim pelo aumento de corredores BUS, e por uma atitude mais interveniente da Camara e das Juntas de Freguesia , não permitindo á Carris cortar e alterar carreiras a seu belo prazer.

    O combate ao estacionamento anarquico, o aumento de parques na periferia com segurança,impõr uma vez por todas a proibição do estacionamento em cima dos passeios, e das paragens de autocarros, penalizando fortemente os infractores,tambem aqui não vejo divergências de fundo.

    A divergência real começa com a frente ribeirinha, paredões em Alfama para estacionamento de cruzeiros, construção desenfrada na Doca de Pesca, etc etc etc.

    Aqui sim há divergências , e terá que haver um debate publico, pois a frente ribeirinha é um bem de Lisboa e dos lisboetas, e não pode estar á merçê de especulação imobiliaria, ou de outros interesse mais obscuros.

    Por isso penso que se Antonio Costa quiser poderá governar Lisboa com o apoio dos vereadores á sua esquerda, bastará por isso que se disponha a dialogar, e a não tomar por factos consumados, asneiras como aquela que se pretende implementar na frente ribeirinha.

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