Uma causa minoritária

[Público 21 maio 2007]

É para quem pode pagar o acesso ao que de melhor o mercado permite que o dinheiro “para os impostos” parece inútil.

1. Os portugueses reclamam, com razão, de muita coisa. Todos os dias. Na rua, no café, no trabalho. No entanto, faça um exercício: quantas vezes ouve alguém reclamar por uma baixa de impostos? Pouquíssimas vezes, quase nenhumas. Isto é diferente de dizer que não a aceitariam, mas mesmo assim deve ser desesperador para quem pretenda liderar a opinião pública com uma agenda anti-impostos. O PSD tentou-o há pouco tempo, jogando forte o seu líder na proposta.

Para comparação, façamos a experiência: quantas pessoas ouvimos queixarem-se de serviços público insatisfatórios? A resposta é clara: não há ninguém que não se queixe de hospitais inadequados, escolas sem material, falta de apoio aos idosos, buracos na estrada, bombeiros sem equipamento, ruas mal iluminadas. Ainda na semana passada uma notícia nos garantia que até determinado dia tudo o que havíamos trabalhado ia “para os impostos”, uma revelação que em princípio é desagradável. Mas perguntemos a um jovem casal: preferem trabalhar menos dois dias “para os impostos” ou trabalhar mais dois dias em troca da expansão da rede pré-escolar pública a todo o país?

Qual é a explicação para este enigma? Em parte, terá de ser porque Portugal é um país de gente pobre e remediada. Os neoliberais diriam que, precisamente por isso, os portugueses deveriam desejar ficar com mais dinheiro no bolso. Efectivamente essa é uma proposta que, em si, ninguém recusa. Sem embargo, essa gente pobre e remediada está mais preocupada com os serviços públicos porque sabe que é deles que depende quase em exclusivo. É para quem pode pagar o acesso ao que de melhor o mercado permite que o dinheiro “para os impostos” parece inútil. Se os impostos descessem, sempre sobraria mais algum dinheiro para os gastos. A maioria dos jovens casais portugueses ganharia mais, na prática, com os filhos na creche pública.

Como é evidente, nem todos os impostos vão para coisas úteis. Uma boa parte é desperdiçada. Mais aí faça-se de novo a pergunta a qualquer português na rua: se conseguirmos reduzir o desperdício no estado prefere a) que lhe devolvamos o seu dinheiro ou b) que melhoremos os serviços públicos? Estou convencido que descobriremos o mesmo que o PSD ficou a saber depois de expor o seu líder à indiferença geral. Em Portugal, a descida dos impostos tem menos apelo público do que qualquer causa minoritária porque não passa disso mesmo: uma causa minoritária.

2. Na impossibilidade de haver uma “grande coligação” à esquerda para a Câmara Municipal de Lisboa, apelei aqui na semana passada ao entendimento entre Sá Fernandes e Helena Roseta para uma candidatura independente, comum e aberta. Devo um esclarecimento às muitas pessoas que gostaram da ideia, confirmando que o eleitorado e o programa de ambos os independentes é compatível. Mesmo nas candidaturas, a ideia foi mais longe do que ao início julgaria possível, mas acabou por ser abandonada por Helena Roseta mesmo depois de o BE ter aceitado prescindir de se apresentar às eleições, libertando Sá Fernandes para conversações directas. Entretanto, uma sondagem confirmou a minha intuição: os votos de ambos os candidatos seriam superiores aos votos no PSD. O debate sobre a cidade teria lugar entre a candidatura do PS e a dos dois independentes, em vez de termos uma campanha entre António Costa e os “outros”. Felizmente, ninguém casa obrigado. Mas nesse é caso é melhor não falarem em casamento.

1 Resposta a “Uma causa minoritária”


  • Já o disse no Blasfémias: Rui Tavares tem vencido repetidamente Helena Matos. E já agora também dizer que tem sido o melhor debate ping-pong dos últimos bons anos.

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