Sociologia de bolso

[Público 31 outubro 2007]

Também nos livros de sociologia há uma coisa chamada “distinção”: antes era pôr os filhos em “bons liceus” públicos da pré-massificação, hoje é pagar por ela do seu bolso em colégios.

Lamento, mas agora não posso ver a posição em que ficou a minha escola nos célebres rankings. Não me deixam abrir a porta e, mesmo que a abrisse, lá fora só há uma queda de onze mil metros no meio do Atlântico.

A última vez que vi, porém, a Escola Secundária Luísa de Gusmão estava na segunda metade da tabela. Um destes anos estávamos ali por volta da 250º posição, mas dois lugares acima do famigerado Liceu Pedro Nunes. Ora toma!

Se tentar seguir a pista ao pessoal da Luísa de Gusmão, e não é um exercício que eu faça muitas vezes, encontro uma artista revelação do ano, um director de revista, uma pivot de telejornal, um doutorado em biologia, um actor do teatro nacional, duas escritoras premiadas, dois fotógrafos. Perdemos alguns de nós: um morreu de overdose e outro suicidou-se na primeira semana da tropa. E há certamente bancários avulsos, militares, funcionários da junta de freguesia, professores universitários, empresários, taxistas, e devo incluir um dirigente da universidade que diplomou o nosso primeiro-ministro. Não “tivemos sorte”, mas fomos talvez mais longe do que teríamos ido uma geração antes. Vínhamos do Alto de São João e da Mouraria, da Graça e da Curraleira, da Picheleira e do Alto do Pina. Quando nos encontrávamos para os trabalhos de grupo havia casas com poucos ou nenhuns livros. Mas a Biblioteca Municipal da Penha de França era ali ao lado e a Câmara Municipal (de Jorge Sampaio) dava-nos bilhetes para irmos ver matinés de cinema ao São Luiz. Devemos muito às escolas públicas, às bibliotecas públicas, aos teatros públicos.

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Para que serve esta sociologia de bolso? Unicamente para provar que a sociologia de bolso é um desporto acessível a qualquer um, para qualquer discussão, sustentando qualquer tipo tese. Já ouvi Maria Filomena Mónica dizer-me que o final dos anos oitenta foi de “terra queimada” na educação, e que não havia clássico da literatura portuguesa que entrasse nas salas. Eu estava lá e permito-me discordar: estudámos as cantigas medievais e Bernardim Ribeiro, as Folhas Caídas e Alexandre Herculano, Os Maias e Camilo Castelo Branco. E não fomos uma excepção: somos do meio do ranking. Helena Matos decreta o falhanço do ensino público em Portugal, e eu tenho impressão que um falhanço não é uma coisa que se postula mas que se diagnostica com dados, principalmente quando se é adepto do rigor. Onde estávamos nas tabelas internacionais há uma ou duas gerações, tanto em termos relativos como de cobertura da população? A Suécia estava toda alfabetizada no século XVIII. Querem comparar?

Estou disposto a reconhecer que o ensino público português tem um monte de problemas. Mas para isso devo dizer que os artistas, jornalistas e políticos que estudaram em escolas públicas e hoje inscrevem os filhos em escolas privadas valem tanto como os itinerários dos meus colegas. Também nos livros de sociologia há uma coisa chamada “distinção”: antes era pôr os filhos em “bons liceus” públicos da pré-massificação, hoje é pagar por ela do seu bolso em colégios. Não me parece mal. Não podem é concluir que o ensino público se tornou um inferno desde que os seus filhos saíram de lá.

Nem nada disso justifica pretender que o dinheiro público financie, através de vouchers, o ensino privado. Nem fantasiar que os problemas do ensino público se resolvem não gastando dinheiro com ele. Bons resultados no ensino público custam dinheiro, ainda mais quando se começa tarde. E neste país de estádios de futebol e empréstimos a administradores do Banco de Portugal, não há dinheiro mais bem gasto do que esse.

Nota: A propósito das crónicas da semana passada recebi a informação de que a Fundação Gulbenkian não tem qualquer relação com o Professor Watson. Creio que a leitura das mesmas deixa claro que não o pretendi sugerir.

2 Respostas a “Sociologia de bolso”


  • Exactamente! É só demagogia. Mas, tudo indica que os frequentadores das escolas públicas já estão a acordar. Finalmente! Leia o meu último post e perceberá melhor o que afirmo.

  • Parece que descreves cenas do neo realismo lisboeta dos anos 80! Não seria tão bom como dizes, nem tão mau como te pareceu. E sim, havia várias casas com livros ( apesar de alguns nunca chegarem a sair das suas embalagens plásticas do Circulo de Leitores, por uma questão de protecção, ..creio..). As casas eram pequenas, de divisões apertadas, móveis que duravam várias vidas. Brincavamos na rua..Iamos a pé para a escola, era outro mundo. Mas o que penso de facto, é que quem ser, saber, vêr, conhecer, vai atrás e vê tudo o que quer. Não é a escola que nos forma na totalidade. Privada ou pública, creio que estariamos todos onde estamos. E é ai que está a distinção.

    Curioso acho o facto de não ter tido um único professor que me marcasse, não há nenhum de quem possa dizer: ” fulano de tal, mudou a minha vida, a minha forma de pensar, o modo como olho para o mundo. Acredito que há bons e maus professores em qualquer escola, como há bons e maus alunos e que por vezes podem acontecer casos brilhantes em que uns realmente influenciam os outros.Mas, pessoalmente, sinto que a verdadeira troca de saber, a verdadeira aprendizagem, acontecia entre colegas. E sim, tens razão, acredito muito que é preciso investir (à grande), no ensino público português!
    Um abraço!

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