Sem dizer adeus

Para o Olímpio

[Público 31 dezembro 2007]

O paginador, quando dá por preparado um livro, está sujeito à mesma lógica unidireccional que nós: só pode avançar na ordem crescente, da primeira para a última página, fechando cada uma à sua vez e sem voltar atrás. Trabalha noite fora, tomando decisões que — ele sabe — irão afectar tudo o que está para diante, mas sem adivinhar muito bem como, nem de que forma.

Por saltarem umas rolhas de espumante logo à noite e se pendurarem calendários novos na manhã do dia seguinte, ficamos convencidos de que é obrigação nossa imitar o antigo deus Jano para, sem o benefício das suas duas cabeças, perscrutar o passado e o futuro próximos.

Pois bem, despachemos o passado colectivo. Em Janeiro, o país esteve ocupado com o referendo sobre o aborto e em Fevereiro votou pela despenalização, encerrando esse assunto, — e é dos poucos assuntos encerrados do ano. Passámos Março entretidos em saber se o Primeiro-Ministro era ou não engenheiro. Em Abril sobressaltámo-nos quando um grupo de marinheiros britânicos foi capturado e depois solto pelo exército iraniano. Em Maio os franceses elegeram Sarkozy. Em Junho e Julho as eleições de Lisboa foram dando animação política, seguidas em Agosto e Setembro pela troca de líderes no PSD. A partir de Outubro começámos a ver que o maior banco privado do país também era capaz de ser uma má telenovela. Novembro de 2007 fica memorável por uma única coisa: o rei de Espanha mandou calar o presidente da Venezuela. E em Dezembro assinou-se o Tratado de Lisboa, que falta ratificar, mas ainda assim.

Achámos que o ano podia sair de cena. Mas ele não o fez sem uns dias antes nos demonstrar, através do assassinato de Benazir Bhutto, aquilo que já deveríamos saber: que tudo fica pendurado à espera de sentido.

Um ano que acaba é como uma pessoa antes de uma viagem inadiável mas com as malas por fazer, no meio de um quarto desalinhado e com os assuntos todos em aberto. Agora é tarde, 2007. Com vontade ou sem ela, vais ter de ir.

***

Perguntar-nos que espécie de balanço se pode extrair disto é que não é possível. Seria como interromper a leitura de um livro na página 89, ou na 127, ou naquelas de número primo, ou mesmo somente nas acabadas em zero, e querer tirar dessas circunstâncias qualquer significado.

Com agravantes. Porque um livro não é o tempo e não é a história. Nós não somos leitores da nossa vida. E muito menos, apesar de às vezes termos ilusões, somos dela autores.

Seremos talvez uma espécie de paginadores. O paginador, quando dá por preparado um livro, está sujeito à mesma lógica unidireccional que nós: só pode avançar na ordem crescente, da primeira para a última página, fechando cada uma à sua vez e sem voltar atrás. Trabalha noite fora, tomando decisões que — ele sabe — irão afectar tudo o que está para diante, mas sem adivinhar muito bem como, nem de que forma.

A diferença notória é que este é um livro que não se fecha, e no qual todos ficamos a meio. Vamos acumulando eventos e perdendo tempo. Somos empurrados para a frente sem outra escolha. Vivemos algumas alegrias, se as houver. E, em geral, vamos ganhando um coração magoado e a lembrança carregada de saudades. É pelos amigos que ficaram para trás, mas que ainda traremos conosco para 2008 e os mais anos que restarem, sempre futuro adentro.

3 Respostas a “Sem dizer adeus”


  • Ai a superficialidadezinha… andou a ler um qualquer “Existencialismo em 90 minutos” e sentiu o impulso de escrever uma notazinha? Nao se conveça que é coisa séria; é mais uma demonstração da sua inanidade intelectual. Infelizmente para si, nem a glosar Nietzsche e Sartre inconscientemente ao correr de retratos prosaicos se safa… lamento!

  • Caro Rui Tavares,

    Prepare-se que vai ser excomungado, passando os seus textos a integrar o index dos rapazes da sotaina, o que também tem os eu lado bom: começa a ser ainda mais lido por gente decente.

    Agora que a a biliosa baba desta gente começa a derramar-se por este blog, não será tão cedo que se vai livrar da ‘brigada dos beatos’.

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