Regresso à escola

[Público, 13 abril 2007]

Ao apresentar o estudo como mero instrumento da profissão, a profissão como mero intrumento do sucesso, e o sucesso medido pela cultura de celebridade, acabamos a degradar tanto o conhecimento como o trabalho.

Até pode ser que o governo tenha uma imbatível estratégia de comunicação. Mas se assim for, fica por explicar como é que o próprio governo põe nas ruas uma campanha sobre a importância de acabar os estudos no auge de uma polémica sobre os estudos do Primeiro-Ministro. Pode ser que algum desses gestores de comunicação bem pagos possa explicar o fenómeno.

Além do escape cómico que proporciona, esta campanha tem outros pontos de interesse. Vou tentar resumi-la, fingindo que é para benefício dos estrangeiros e emigrantes que vivem fora de Portugal, e que verdadeiramente não fazem ideia do que perdem.


Na sua ideia um tanto arrevesada, a campanha mostra celebridades reais “de sucesso” ficcionalmente travestidas em trabalhadores de baixas remunerações em profissões desqualificadas, para às avessas enfatizar a importância dos estudos no sucesso real daquelas celebridades. Num cartaz-tipo vê-se Carlos Queirós, que na realidade é um treinador de futebol de topo no Manchester United, vestido como um apanha-bolas e tratador de relva num estádio de futebol, enquanto o slogan anuncia: “Este é o Carlos Queirós que não acabou os estudos”.

Se há coisa que se pode imaginar é que a campanha foi concebida com toda a boa vontade. A esse nível muito básico, segundo o qual “tudo o que vier” para promover os estudos virá necessariamente por bem, é até um pouco ingrato atacá-la. Mas como muitas ideias excelentes defendidas pelas razões erradas, a campanha tem um fundo pernicioso que vale a pena comentar.

Poderia começar-se por considerar que ela é contaminada por uma cultura que usa o “sucesso” como medida de todas as coisas. Nessa cultura, os estudos aparecem como meramente instrumentais na obtenção do sucesso, como para as crianças a sopa é apenas a provação a que são forçadas pelos pais para poder chegar à sobremesa. O pior, como sabe qualquer pai ou mãe, é que as crianças são rápidas a arranjar contra-exemplos. Então que tal o Cristiano Ronaldo que não acabou os estudos (e vai ser o jogador de futebol mais bem pago do mundo)? E o José Saramago que não acabou os estudos (e é só o Prémio Nobel da Literatura)?

Claro, estes contra-exemplos são raros. Mas há outros bem mais numerosos — e dolorosos também. No nosso tempo e no nosso país o que não falta é gente que acabou os estudos e que desempenha trabalhos mal pagos e mal considerados. Há-os às dezenas em cada call-center, essa espécie de manjedouras onde são despejados depois da universidade e trabalham à comissão pela venda de cartões de crédito. Inevitavelmente, esta falsa promessa de sucesso através dos estudos é para eles uma memória amarga. Um deles, chamado Pedro Vieira e artista de talento, reagiu a este murro no estômago redesenhando o cartaz, mas com o seu caso pessoal. O resultado está no seu blogue em irmaolucia.blogspot.com e, avisa-se já, termina com um merecido palavrão.

Falta ainda acrescentar toda a gente que não pôde estudar mas que gostaria de tê-lo feito independentemente do sucesso, pela simples razão de que acham indesejável viver ignorante. Ao apresentar o estudo como mero instrumento da profissão, a profissão como mero intrumento do sucesso, e o sucesso medido pela cultura de celebridade, acabamos a degradar tanto o conhecimento como o trabalho. Parabéns, ó génios da comunicação!

3 Respostas a “Regresso à escola”


  • No mínimo uma campanha demagógica. Que responder, como diz, àqueles que gostariam mas não podem estudar? E aos que estudaram e não encontram emprego correspondente às habilitações adquiridas? Quantos licenciados trabalham em supermercados, por exemplo? Ou que encontram como única colocação um estágio remunerado pelo IEFP que, depois, não tem continuidade na criação de um posto de trabalho? Depois, também me parece que na campanha passa uma mensagem subliminar da cultura de sucesso de um certo estrelato.

  • A campanha está centrada na eficácia e no sucesso profissional que os estudos podem proporcionar. A campanha poderia também passar a mensagem que, os estudos muito enriquecem interiormente os indivíduos e até, quem sabe, muito contribuem para a felicidade das pessoas! Só que se fosse assim seria muito menos persuasiva. Sendo como é, mais básica portanto, acredito que atinge melhor os objectivos a que se propõem.

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