Pataniscas

[do Público de 5 de Agosto Obrigado ao Pedro Vieira e ao Luís Aguiar-Conraria por terem ajudado a quebrar um galho recuperando a carta do leitor a que me refiro na terceira “patanisca”.]

Para os neoconservadores e bushistas em geral, chegou o momento de reconhecer que possuem uma versão invertida do dom de Midas: tudo o que tocam vira escombros.

1. A Lista. A lista dos devedores ao fisco foi a solução que arranjou um antigo ministro das Finanças, Campos e Cunha, para não se quebrar o sigilo bancário. Quando foi publicada esta semana começou a cumprir aquela trajectória, tão portuguesa, que vai de não se querer incomodar alguns até não se contentar ninguém. Para já, contudo, parece haver grande satisfação pela exposição dos “caloteiros” — satisfação que eu não sinto nem quero acompanhar. Os caloteiros que podiam pagar fizeram-no antes da divulgação da lista; sobraram provavelmente os falidos e os acossados. Mesmo sabendo que esta artimanha permitiu fazer entrar nos cofres públicos dinheiro que era de nós todos, não posso ficar contente com a violação dos direitos daqueles indivíduos, nem com a correspondente degradação da comunidade em que eles se inserem.

A quebra do sigilo bancário não implicaria nada disto: quem tem dinheiro num banco já partilha esta informação com a instituição financeira, as suas filiais, os seus funcionários; passaria a partilhá-la também com um único serviço público e para um único fim restrito. As coisas ficariam entre o contribuinte, o seu banco e as finanças; não entre o contribuinte, o vizinho, o chefe lá do trabalho e os colegas dos filhos na escola.

A exposição dos nomes de prevaricadores tem uma triste história — por exemplo, nas listas de penitenciados dos autos-da-fé — e tristes são estes seus ecos modernos. Mais tristes ainda por serem a resposta inequívoca a esta pergunta: entre os direitos dos bancos e os dos cidadãos individuais, quais sacrificaram os nossos governantes eleitos em primeiro lugar?

2. O Toque de Midas. Esta semana soube-se que o embaixador britânico em Bagdad considera que o desfecho mais provável no Iraque é uma guerra civil, onde aliás já chegámos em baixa intensidade. Mesmo a versão revista em baixa das expectativas de Bush, “um governo que se consiga sustentar e defender o Iraque”, é menos provável do que a guerra civil. Ontem soubemos que dois dos principais generais americanos acham o mesmo.

Para os neoconservadores e bushistas em geral, chegou o momento de reconhecer que possuem uma versão invertida do dom de Midas: tudo o que tocam vira escombros. O Iraque está à beira do precipício, o Afeganistão não anda longe. Do Líbano, essa jóia do curriculum no Verão passado, pouco resta para dizer.

Se exceptuarmos Francis Fukuyama, que reconheceu os erros e se afastou do movimento, chega a ser indecorosa a forma como aqueles que defenderam a Guerra do Iraque continuam a pretender possuir uma espécie de monopólio sobre a realidade. Começaram a guerra por causa das armas de destruição em massa; continuaram-na para depor Saddam; depois para instaurar uma democracia liberal; a seguir para que os iraquianos se defendessem a si mesmos. Para consumo doméstico prometiam um governo iraquiano pró-ocidental e “amigo de Israel” (não sei se viram como Nuri al’Maliki, primeiro-ministro iraquiano, se escusou a condenar o Hezbollah). Quando começaram, o Irão era reformista e conciliador; hoje está extremista, converteu-se numa poderosa potência regional e pode agradecer o empurrão aos disparates de Bush. No coluna do “haver”: Saddam. Na coluna do “deve”: tudo o resto.

E, no entanto, continuam a exigir que a opinião pública lhes seja tão maleável quanto os pais de uma criança birrenta.

3. Uma resposta. O leitor J.C. Fernandes, da Maia, escreveu para protestar contra a minha coluna da semana passada. A sua carta saiu no Público de ontem, e nela me pede desculpa por me chamar “estúpido”. Não precisa de pedir desculpa, caro leitor; quem nunca chamou estúpido a um colunista que atire a primeira pedra. O meu texto está disponível, para isso mesmo e outras coisas, em http://ruitavares.weblog.com.pt — onde o leitor poderá confirmar que o tresleu, o citou mal e o distorceu literalmente a partir da primeira palavra: nem o título escapou. Eu próprio não responderia se o leitor, por sua vez, não me tivesse acusado de chamar estúpida “a uma nação inteira”, que se pressupõe ser Israel.

Esta acusação é inadmissível.

Desde logo, porque é falsa; pelo contrário, afirmei que uma das grandes forças de Israel era o seu povo. Acima de tudo, porque escrever tal coisa seria racista, esse sim o mais estúpido sentimento do mundo. Mas disso saberá certamente o leitor, que escrevendo sobre os povos vizinhos de Israel diz que são “turbulentos, extremistas, preguiçosos e pouco fiáveis”, não é verdade?

Propõe-me que imagine como seria se Portugal fosse atacado a partir da Galiza como Israel a partir do Líbano. O pressuposto é o de que Israel faz apenas “o normal”, o que todos os países fazem. A realidade não confere. Espanha foi alvo de terrorismo durante décadas, e sabia que a ETA se escondia no País Basco francês. Nunca bombardeou Saint-Jean-de-Luz. O Reino Unido foi alvo de terrorismo durante décadas e sabia que o IRA se organizava na República da Irlanda. Nunca bombardeou Belfast, muito menos Dublin. Há menos de um mês, sete atentados simultâneos mataram mais de duzentas pessoas em Bombaim. Há fortes suspeitas de que os autores tenham vindo da Caxemira paquistanesa. Todos os ocidentais louvaram a contenção da Índia; e no entanto, ao contrário do Irão, o Paquistão já tem armas nucleares e partilha uma fronteira terrestre com a Índia.

A lição é clara: o terrorismo é uma questão de segurança, policial, judicial, política. Pode ser atacado, com mais ou menos sucesso, por qualquer destas vias. Quando passa a ser uma questão militar, perpetua-se.

[Clique para ver reprodução da carta] A carta também se encontra transcrita no primeiro comentário.

1 Resposta a “Pataniscas”


  • Ai’ vai

    “As fraquezas de Israel”
    Surpreende-me que pessoas tão longe do conhecimento da realidade se proponham escrever sobre essa realidade – refiro-me ao colunista Rui Tavares e à sua coluna de 29/7/06, “As fraquezas de Israel”.
    Não sei se o sr. Rui Tavares já esteve em Israel, ou se, pelo menos, fez como o Pacheco Pereira e simplesmente “olhou para o mapa”. Israel está rodeado de países que lhe são hostis. Uma hostilidade sempre semiencoberta, mas agora cada vez mais declarada e propagada. Ali ao lado estão dois países inimigos e pelo menos um proclama à boca cheia por todo o mundo desejar a extinção pura de Israel, ao mesmo tempo que se encarniça por tecnologia nuclear para qualquer fim. Pela boca do seu Presidente, e com óbvio apoio popular (…). O sr. Rui Tavares não percebe que a reacção de Israel não é uma demonstração de força, mas de desespero, de medo, de medo mais que justificado, de que o seu país, todos os seus habitantes sejam, mais cedo ou mais tarde, mais lenta ou mais repentinamente, aniquilados, mortos.
    O sr. Rui Tavares, se lá vivesse, compreenderia esse medo – ou então é muito muito corajoso. O que Israel está a fazer não é a reacção a um rapto, mas a mais um rapto, a mais um ataque suicida, a mais uma provocação, mais um rocket, mais um míssil. Se o sr. Rui Tavares lá vivesse, veria como os israelitas são pessoas educadas, cultas, fiáveis, abertas e alegres, veria como desejam a paz mais que tudo e todos. Compreenderia que, se se chegasse a um qualquer acordo com os países envolventes (turbulentos, extremistas, preguiçosos e pouco fiáveis, confirmo), e, se pudessem confiar neles, seriam as pessoas mais felizes do mundo e as últimas a pensar atacar fosse quem fosse. Compreenderia que o israelita médio (mais de 70 por cento apoiam o Governo) não tem nada a ver com o Golem, e é incomparavelmente menos estúpido do que, p. ex., um colunista português. Desculpe se lhe chamo estúpido (eu não o conheço), mas foi você quem chamou primeiro, e a toda uma nação, sem a conhecer. Se o sr. Rui Tavares vivesse em Israel, veria com que respeito os israelitas tratam os árabes que lá querem viver respeitando os outros. E compreenderia o facto óbvio de que a força de que fala se dirige unicamente para os que o atacam ou pretendem atacar pela força, sem dar verdadeiramente a cara, e com o objectivo expresso de aniquilar Israel.
    Eu queria pedir ao sr. Rui Tavares que fizesse um esforço, se despisse de todos os pressupostos ideológicos e simplesmente olhasse para a realidade nua e dura como se vivesse em Haifa ou Telavive. Ou como se vivesse em Viana do Castelo e Fraga Iribarne dissesse que queria a eliminação de Portugal e estivesse a comprar tecnologia nuclear aos russos com a fortuna acumulada a explorar o petróleo das Rias Baixas, enquanto partidários do BNG se ocupassem a raptar os nossos magalas e a fazer-se explodir no NorteShopping nas tardes de sábado. Eu aconselho o sr. Rui Tavares a passar uns tempos em Israel (OK, pode ser no Sul…), ou então a mudar o assunto das suas crónicas.
    J. C. Fernandes
    Maia

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