Paris, Lisboa

[da coluna “Svengali”, na Blitz de Maio 2007]

Além das gratas memórias, Paris Hilton e eu temos outra coisa em comum: passámos o último mês sem poder conduzir um carro. A Paris, que foi sempre mais impaciente do que eu, não resistiu a quebrar a regra e agora encontra-se nas garras da justiça americana, sujeita a uma pena de prisão. Eu fui bom cidadão. Não toquei no volante nem para salvar o pai da forca. Foi o melhor mês da minha vida.

Já passei seis anos sem televisão em casa. Foi esplêndido. Já me cortaram o telemóvel, o que aconselho a toda a gente. E também já vivi sem carro durante quatro anos, numa cidade que não era Lisboa. Mas não foi tão bom. Explico: é que foi numa cidade que não era Lisboa. Um mês sem carro em Lisboa equivale a mais uma década de esperança de vida e é tão bom como vários anos sem carro em qualquer outra cidade. Por razões negativas e positivas. Pelas negativas: porque andar de carro em Lisboa é uma tortura maior do que seria sensato. Pelas positivas: porque andar a pé em Lisboa é mais variado, mais belo e mais surpreendente do que seria sensato.

Ambas as razões partem do mesmo pressuposto: Lisboa não foi feita para o carro. É por isso que é uma tortura conduzir neste relevo e nestes arruamentos, e uma tortura maior ainda estacionar. E o pior ainda é que, principalmente quando estacionamos, começamos a torturar os outros: os velhos, as crianças, as grávidas, os deficientes. Em muitos bairros quase não há estacionamento legal. Eu, transeunte, sou obrigado a contornar um carro em cima do passeio, protestando, afogueando, furibundo. Quando olho, aquele carro é o meu, ou poderia ser. Eu torturo-me a mim mesmo. O meu carro está em cima do meu passeio. É insano.

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Por outro lado, Lisboa é uma cidade especial precisamente porque não foi feita para o carro. Este relevo e estes arruamentos são uma benção para a consciência estética. Só é pena que, não tendo sido feita a cidade para o carro, o carro seja tão prático em Lisboa. Sem carro, eu demoro meia hora a pé da Baixa para a Graça. Meia hora de subida, necessariamente pausada, com paragens para apreciar os detalhes e, pelo menos, três vistas grandiosas. De carro, eu demoro cinco minutos. A solução intermédia é o eléctrico: quinze minutos, tão belos como uma caminhada, tão práticos quanto necessário. O problema é que está um carro estacionado em cima da linha e o eléctrico não avança.

A lógica diz-nos que, se há infestação, é porque há boas razões para o infestante se dar bem naquele lugar. E há excelentes razões para o carro ter infestado as nossas cidades. O carro é um cavalo-de-tróia. Não há nenhum meio de transporte que seja em simultâneo tão rápido, tão flexível, tão privado. Com o carro não há linhas pré-definidas. Posso mudar o meu percurso. Posso tratar de cinco assuntos em cinco lugares diferentes durante uma única tarde. O carro é liberdade. E eu estou viciado nele. Sou um viciado. Às vezes porque preciso, às vezes porque quero. Mas como todos os viciados, tenho uma vaga sensação de que estou a fazer mal a mim e aos outros.

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Como resolver este dilema?

Em primeiro lugar, menos quartéis militares no centro da cidade. Há quartéis em bairros tão infestados pelo carro como a Ajuda, a Penha de França, Benfica, a Graça, Alfama. Já não são necessários e estão quase vazios. Um quartel é normalmente composto por uma parada e edifícios adjacentes. Demora duas semanas a transformar essa parada em espaço de estacionamento; demora um ano e mais dinheiro para a solução ideal: escavar a parada para um estacionamento subterrâneo e um jardim à superfície. Os edifícios em torno podem ser transformados em ninhos de novas empresas, ateliers, centros culturais, creches, lares, residências. Os militares estão dispostos a sair do centro da cidade para edifícios mais modernos, mas está toda a gente à espera que seja possível vender os antigos quartéis para empreendimentos imobiliários, que dão mais dinheiro e agravam o problema.

Em segundo lugar, mais transporte público. De preferência, mais eléctrico e mais metro. E, pergunta-se, quem vai pagar? Eu. Eu poluo, eu engarrafo, eu incomodo os outros. Estou disposto a pagar por isso, a pagar caro, a pagar de uma vez só, todos os anos, por ter um carro no centro de Lisboa. Com uma condição: o dinheiro tem de ser usado para combater o meu vício, para diminuir a minha necessidade.

1 Resposta a “Paris, Lisboa”


  • apesar de só agora ter visto este seu texto (sou sua leitora assídua no público), não resisto a comentar algumas partes.
    embora tenha carta, a condução foi uma coisa que nunca me fascinou, pelo que morando e trabalhando em lisboa optei por não ter carro, apesar das óbvias vantagens do mesmo.
    não sou, no entanto, cega aos problemas dos automobilitas, nomeadamente o do estacionamento, já que moro na Penha de França (onde é práticamente impossivel fazê-lo a partir de determinada hora sem que o seja em segunda ou terceira fila nas esquinas)e trabalho em São Bento (igualmente impossivel sem ser em Parques de Estacionamento caros).
    Agora que isso se resolva exclusivamente com o abandono dos quarteis, já tenho as minhas dúvidas… até porque quanto mais agregado familiar há, mais carros há também

    quanto ao problema do transporte público, sim seguramente aumentar o metro é sempre uma boa opção, e tenho muita pena que nunca mais se tenha ouvido falar do projecto metro das colinas, anunciado e seguramente arquivado nalguma gaveta de um administrador do metro.
    já a ideia dos eléctricos me parece um pouco uma fantasia de natal. tirando os rápidos com linha assegurada para transportes públicos, os outros (poucos) servem para os turistas (dado os trajectos) ou para quem tem tempo de andar neles, pelos motivos que já enunciou

    bom mesmo, na minha opinião, seria que a política de transportes em lisboa, fosse articulada com as juntas de freguesia e a CML (já nem digo o governo)e não que a Carris tenha o poder de alterar, nalguns casos profundamente, como fez o ano passado toda a sua estrutura, linhas e horários em lisboa sem que aparentemente tenha que se justificar ou prestar contas a alguém.

    Depois dessa mudança e das inúmeras reclamações que teve, quem efectivamente precisa de utilizar a Carris para ir trabalhar ainda foi presenteada diariamente, na altura, com a informação que a Carris tinha tido a certificação da qualidade.
    Foi um must no marketing da carris

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