[Público 15 novembro 2007]
Mas foi talvez outra coisa que fez dele, naquele momento, um campeão da democracia: ter exigido respeito pelas palavras, que são os alicerces do debate honesto.
No início do seu livro “O Que Resta da Esquerda”, o autor Nick Cohen conta como em criança não comia laranjas portuguesas por causa de Salazar nem espanholas por causa de Franco. No fim do livro, descreve as centenas de milhares de pessoas que se manifestaram contra a Guerra do Iraque como “apoiantes do fascismo”. É um percurso ideológico longo mas que o leva, entre laranjas e pessoas, da amálgama à amálgama.
Este livro foi editado em Portugal por Zita Seabra. Devem ser incontáveis no nosso país as pessoas a quem Zita Seabra azucrinou o juízo por não obedecerem à linha do partido. No fim do seu percurso, Zita Seabra azucrina-lhes o juízo por lhe terem obedecido a ela e à linha do partido.
No seu editorial de anteontem, José Manuel Fernandes defendia o rei de Espanha e o Papa. Mas para o fazer, teve necessidade de partir da velha dicotomia marxista que divide o mundo entre reformistas e revolucionários. O meu problema não é ela ser velha nem marxista, mas obliterar completamente uma personagem mais importante: a do democrata.
E na tréplica de ontem ao meu texto, Helena Matos transformou a defesa que eu fizera da pedagogia democrática de Zapatero numa fantasiosa apologia de Chávez, que seria meu “ditador de estimação”. Eu poderia ficar ofendido, mas a falsidade é tão evidente a quem tiver lido os dois textos, que vou delegar no discernimento dos leitores e poupar espaço. Talvez eu esteja a ficar inoculado. Fico apenas contente por ter servido para alguma coisa o meu texto: para a Helena Matos de segunda-feira a intervenção de Zapatero não existia; para a Helena Matos de quarta ela é “belíssima”.
São, enfim, quatro exemplos de que é fácil as pessoas saírem do marxismo mas é mesmo muito difícil a retórica marxista sair das pessoas. Ela continua a reciclar os seus velhos vícios — as amálgamas, a rigidez, o maniqueísmo, a culpa por associação e até a pura fabricação — para o debate público.
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Chávez chama “fascista” a Aznar mais ou menos como Helena Matos chama “ditador” a Chávez — de forma repetitiva e sem a mínima consideração pelo significado das palavras. Reagindo a isso, Zapatero pediu respeito pelo seu antecessor e pelo povo que o elegeu. Mas foi talvez outra coisa que fez dele, naquele momento, um campeão da democracia: ter exigido respeito pelas palavras, que são os alicerces do debate honesto. Aznar não é um “fascista”. Nem a um adversário se devem distorcer as palavras. “Fascista” não significa dirigente eleito de que Chávez não goste, tal como “ditador” não significa dirigente eleito de que Helena Matos não gosta. Leio a resposta de Zapatero assim: sobretudo a um adversário não se devem distorcer as palavras.
Juan Carlos não discursou defendendo a democracia ou as liberdades. Limitou-se a mandar calar. Eu, que antes de ser de esquerda sou anti-autoritário, sinto-me distante de quem manda calar e não entro em êxtase quando vejo alguém mandar calar. Nem que toda a gente à minha volta aplauda. Sobretudo quando toda a gente à minha volta aplaude.
Às vezes digo-me até que a grande diferença, antes de ser entre esquerda e direita, é entre quem gosta de deixar falar e quem gosta de mandar calar. Há gente de esquerda que gosta de mandar calar — Chávez é um bom exemplo — e também gente que gosta de ver mandar calar, por interposta pessoa, enquanto é de esquerda ou quando passou a ser de direita. Não estava com eles antes, não estou com eles agora.
Para ser completamente sincero, eu entendo a satisfação de obedecer a um impulso muito humano. Mandar calar é coisa que alivia. E depois? Como visão política, é curto. A realidade não obedece às nossas birras. O populista Chávez ficou justamente diminuído quando Zapatero o acusou de não saber respeitar o povo. Mas lamento dar esta notícia: Chávez não desapareceu por Juan Carlos lhe ter mandado que se calasse.






Rui, as suas opiniões são um oásis entre os “opinion makers” portugueses, escravos do instinto primário e da tirada sonante ao melhor estilo “si non è vero…”.
É realmente uma delícia lê-lo, porque os seus argumentos, que deixam de fora e antes denunciam as falácias com que se tece a lógica geral, têm o cunho da verdade. E revelam uma reflexão aturada e tranquila sobre os problemas, respeitando princípios humanistas que não se vergam ao sabor de correntes ideológicas. Por isso, faça-nos um favor, e não se cale!
Subscrevo por inteiro o que atrás disse a Sra. D. Paula – continue, porque o senhor é dos que contam. E Obrigado.
Digo eu…
Estimado RT: tendo o “cinco dias” reproduzido este seu post, houve comentários ao livro de Nick Cohen, com crítica ao recurso daquele a generalizações.
Quanto a mim, que sou um homem da rua e moro na Malveira, não reconheço tal critica pois (tal como expliquei ali), o autor relata no livro a sua história pessoal e de como foi viver no seio de uma família de esquerda assumida.
Para mim, todas as histórias de família são diferentes, e contei que também tive uma avó comunista que, não ligando à origem das laranjas (pois cá em Portugal nem sequer sabíamos a origem das coisas), recusava-se terminantemente a dar gorjeta a quem quer que fosse, dizendo asperamente mas em voz baixa, que “a gorjeta atrasa a revolução”. Para um miúdo e em plenos anos 60, a incredulidade era morta com rudeza.
Ora, para evidenciar os seus pontos de vista, e no âmbito da sua observação pessoal, NC recorre a algumas generalizações – tendo tido o cuidado prévio de para isso chamar atenção dos leitores logo nas primeiras páginas.
Daí que, nem a generalizações me parecem ofensivas, nem o ponto de vista do autor deixa de ser plenamente compreendido pelos cientificamente mais exigentes.
Penso que a nossa posição em relação ao livro é mais aquela que temos em relação a outras obras: é de simpatizarmos ou não com o que a tese do autor.
Digo eu…