Ó vizinha, dá licença?

[Público 31 maio 2007]

Criar ruas pedonais e destinar a venda de património do Estado à habitação para todas as bolsas é apenas “proibir e fazer engenharia social” – separar lixos, então, imagino que nos leve ao Gulag.

Vamos recapitular. Na segunda-feira, Helena Matos descobriu a pólvora: que “o Estado Português exerce o seu poder de uma forma socialmente injusta”, defendendo com mais celeridade os interesses de uma empresa como a Lacoste do que a integridade física das suas cidadãs alvo de violência doméstica. Concordo sem reservas; acho até que os direitos das pessoas são mais importantes do que os direitos das empresas, nomeadamente a prerrogativa um pouco tola de ser a única companhia no mundo que pode coser um crocodilo numa camisa.

Partindo do princípio que os leitores não pagam o jornal para ver chover no molhado, usei a coluna para aquilo que, salvo erro, ela serve: apresentar ideias sobre temas da actualidade. Acontece que há eleições na maior cidade do país. Como propor coisas não é o monopólio dos políticos, eu tinha pedido aos leitores que enviassem as propostas que gostariam de ver discutidas, e discuti-as.

No dia seguinte, Helena Matos teve um chilique por escrito.


Que eu tinha transformado a coluna num “dazibao” com “fascículos interactivos”. Que a campanha para Lisboa “ainda não começou”. Que “não sei bem o que restará destas crónicas em Julho”. Que estava “disposta a ceder o espaço” das suas colunas. Que “preciso de férias”. Que “a forma escolhida por Rui Tavares destoa claramente do tom desta coluna e dos seus outros textos”.

Pouco importa. Um texto de opinião assinado com o meu nome serve para eu escrever sobre o que eu desejar, quando desejar, no tom que desejar. Não tenho feitio para aturar controleiros.

De caminho, fico enternecido por ver como Helena Matos receia que outro colunista possa tornar-se repetitivo e que lhe causa incómodo ele “destoar”. Só há uma maneira fácil de nunca destoar: é ser monotóno. Mas acho que, tal como com os crocodilos da Lacoste, já alguém registou esse exclusivo. Helena Matos parece acreditar que para debater com a esquerda basta acusá-la, recorrentemente, de totalitarismo. Ainda não percebeu que a única coisa que esse argumento revela é a sua própria miséria como argumento.

Tal compulsão aplicada ao debate sobre Lisboa deu nisto: para Helena Matos, criar ruas pedonais e destinar a venda de património do Estado à habitação para todas as bolsas é apenas “proibir e fazer engenharia social” – separar lixos, então, imagino que nos leve ao Gulag. Já propor eleições primárias e fóruns consultivos é um programa “autoritaríssimo”. A esta nem chegamos lá com o exemplo de todos os países que têm ambas as coisas, dos EUA à Espanha. Que não será então autoritário segundo esta opinião: esperar que o chefe do partido designe o candidato? E quanto ao fórum da cidade, tenho uma péssima notícia. No próprio dia em que Helena Matos publicou o seu texto foi anunciada a criação de um. É azar, não?

E assim chegamos ao último parágrafo, onde se lê: “se o programa de Rui Tavares fosse seguido, Lisboa seria a cidade onde trabalhariam e circulariam os Pini Pons autorizados. Os outros partiriam à noite para o Camboja”. Que dizer? Julgava eu que para acusar as ideias de outrem de levarem aos horrores do totalitarismo seria forçoso apresentar pelo menos um vestígio de argumento. Afinal não; basta insinuar com uma metáfora meio-infantil meio-maoísta que resume perfeitamente o conteúdo de todo o texto e a que me dispenso de responder. Nunca fui maoísta. Tenho pena de quem tenha sido. E no Camboja foram assassinados quase dois milhões de pessoas que me abstenho de utilizar em polémicas sobre outros assuntos.

Quanto ao resto, os leitores poderão continuar a usar o endereço http://ruitavares.weblog.com.pt/ para enviar sugestões a que regressarei numa próxima ocasião. A Helena Matos também pode lá deixar as suas ideias para a cidade. Se tiver alguma.

4 Respostas a “Ó vizinha, dá licença?”


  • Rui, desculpe o paternalismo (quem sou eu pra dar conselhos a alguém), mas largue lá a perna da Helena Nunes. Eu sei que às vezes apetece mesmo morder, mas o ping-pong está a tornar-se cansativo pra quem lê. Continue a expressar as sua opiniões, que é o que mais gosto de ler.

  • O Rui Tavares teve azar com a oponente que lhe saiu em sorte. A verdade é que o Rui merecia melhor. Com uma oponente assim não há ping-pong que resista. Quer dizer, só duas alternativas possíveis: ou o Rui alinha nos golpes baixos e transforma o ping-pong em kickboxing; ou em alternativa, ignora pura e simplesmente a rival, e desta forma ficamos todos a ganhar.

  • Creio entender o que dizem os dois comentadores que me antecedem… E TALVEZ (não estou certo ainda) lhes dê alguma razão.

    Gosto da sua postura. Talvez mais que da sua escrita. (E olhe que gosto bem desta!)

    Em relação à carta à vizinha… Também não era preciso ser tão (ainda que calmamente – é o seu jeito) violento!
    Olhe que deixou a rapariga escaqueirada!
    Se a moça merecia mais?
    Cuido que sim.

    Uma coisa que a muitos terá passado ao lado, foi essa valente alfinetada: “nunca fui maoísta. Tenho pena de quem foi”…
    Ela estrebuchou, de certeza. Deve-lhe ter rogado uma praga… (Mas eu estou a imaginar o Rui Tavares raladíssimo com isso!…)
    Força, amigo.
    Que não lhe doam as palavras.
    JLF

  • Hoje, sim, há blogolândia.
    jlf

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