O que há numa data

[do Público, 10 de Junho 2006]

A estupidez do racista não é uma estupidez qualquer. É uma estupidez monumental: tem escadaria e dez quartos-de-banho, dá muito trabalho a manter. Qualquer distracção e poderia ficar-se mais inteligente.

Passam hoje onze anos sobre o assassinato de um português mulato, Alcino Monteiro, às mãos de um bando de racistas.

É hábito da imprensa descrever Alcino Monteiro como “cidadão cabo-verdiano”. Isto é incorrecto. Alcino Monteiro era cidadão português, por naturalização, com Bilhete de Identidade e até serviço militar feito nas Forças Armadas deste país. Outras vezes aparece descrito como “de origem cabo-verdiana”, e fica insinuado que foi esta a motivação do assassinato de que foi vítima. Mas não foi por ser “de origem cabo-verdiana” que mataram Alcino Monteiro: se ele fosse cabo-verdiano e branco não lhe teriam tocado. Alcino Monteiro era português e foi assassinado por outros portugueses que não gostavam da cor da sua pele.

Desde que Alcino Monteiro foi assassinado que a imprensa não consegue acertar num facto simples como este. Quando se esconde a motivação do crime por detrás de eufemismos como “origem cabo-verdiana” ou “cidadão cabo-verdiano”, não só a informação vai errada como se está a espoliar uma vítima da nacionalidade que ganhou com trabalho e esforço. É uma reviravolta com tons de injustiça. Cheguei a ver um artigo em que Alcino Monteiro era descrito como “cidadão cabo-verdiano” ser ilustrado pela foto de um dos seus documentos, onde se lia: “República Portuguesa – Bilhete de Identidade de Cidadão Nacional”. Ou seja, Alcino Monteiro era tão português como, provavelmente, o jornalista que escrevia o artigo e que nem com o documento à frente dos olhos conseguia vencer a força do preconceito — se tem a pele escura — se tem sotaque — então não pode ser bem português.

Nesta semana apareceu na televisão um dos assassinos de Alcino Monteiro. Os tribunais provaram que no dia 10 de Junho de 1995 aquele homem, de seu nome Mário Machado, correu em bando pelo centro de Lisboa pondo em prática a definição do “crime de ódio” que alguns insistem que não existe: atacar, espancar e molestar exclusivamente negros e mulatos, deixando em paz os brancos.

Mário Machado diz que tem “orgulho em ser português”. Mas, ao contrário de Alcino Monteiro, não fez o menor esforço para tal. Diz que tem “orgulho em ser branco”. Tal como Alcino, Mário não tem a menor responsabilidade na sua cor de pele; isso não impediu Mário e outros de espancar Alcino até à morte.

Há quem diga que Mário Machado é apenas dono de uma enorme estupidez. É muito difícil contrariar tal conclusão quando o próprio mostra à TV uma arma que, com o seu cadastro, não pode possuir, diz que tem licença de caça mas que tenciona usá-la nas ruas, e depois explica que a arma, que sempre refere como sendo sua, está em nome da mulher. Até o mais sonolento dos juízes desmonta esta fraude mal amanhada.
Na reportagem, um dos seus comparsas define ainda melhor a coisa: “há gajos que sabem cantar”, afirma, “eu não sei cantar, só sei andar à porrada”. Quando não se sabe nada de nada, resta o racismo.

Conceda-se, no entanto, que a estupidez do racista não é uma estupidez qualquer. É uma estupidez monumental: tem escadaria e dez quartos-de-banho, dá muito trabalho a manter. Qualquer distracção e poderia ficar-se mais inteligente. Logo, há que estar sempre alerta: a estupidez tem de ser mantida a todo o custo, isolada e protegida pela estupidez de outros iguais a ele. Para isso é preciso, até, uma certa dose de esperteza: para esconder ou mostrar as tatuagens da suástica no momento certo, para aproveitar a TV esperando que outros cometam os crimes por ele, para fundar pseudo-partidos com organizações para-militares escondidas, para contar com a complacência da sociedade.

Hoje é ainda data de outro aniversário. Dez anos depois do assassinato de Alcino Monteiro, a mesma imprensa que ainda não conseguiu acertar na nacionalidade da vítima, e que usa de eufemismos para falar da motivação do crime, foi rapidíssima a noticiar um arrastão que não aconteceu. Aí, a cor da pele estava já por todo o lado, até onde o seu valor como informação era igual a zero. Num debate organizado anteontem sobre este assunto (ver Público, secção Media, de ontem) o director de informação da Lusa contou que as imagens de Carcavelos foram recebidas nas redacções “com muita euforia” e noticiadas de imediato, sem confirmação, apesar de “apenas com muita imaginação se poder ver ali um arrastão”. Estas notícias deram uma oportunidade de ouro aos racistas como Mário Machado para saírem da toca, passados dez anos, e organizarem pela primeira vez manifestações que ainda um dia vão acabar mal. Nas palavras de Joaquim Fidalgo, moderador do debate, “os jornalistas erraram e não pediram desculpa”.

São, na verdade, muito densos e contraditórios os sentidos acumulados sobre o 10 de Junho, desde que começou a ser comemorado como data da morte de Luís de Camões. Dá que pensar, mas é melhor que os nossos racistas não se metam nisso. Camões é um símbolo do amor à pátria que só poderia deixá-los humilhados. Afinal, é um desses gajos que “sabia cantar”: era culto e viajado, gostava de poesia e sabia escrevê-la como ninguém, tinha tudo o que eles não têm. Se as crónicas não erram, morreu há exactamente 426 anos. Velado pelo seu mais fiel amigo, o único capaz de o acompanhar literalmente desde o outro lado do mundo, e a quem chamavam Jau, talvez por ser da ilha de Java. Era um estrangeiro e imigrante, portanto, o melhor amigo de Camões. E uma coisa é certa — não era branco.

9 Respostas a “O que há numa data”


  • Excelente texto Rui, como sempre.

    E ja agora, sobre Camões, escreveu um belíssimo poema de amor dedicado a uma mulher que não era, também ela branca. Mais, enaltecia o facto de ela não o ser.

  • Geralmente a imprensa tende a “influenciar” o raciocínio do leitor e a expressão cidadão cabo-verdiano é utilizada com esse objectivo. O mais drástico, é que influencia mesmo!
    Após 11 anos sobre o assassínio de Alcino Monteiro, tudo continua igual, melhor dizendo, ficou pior, a comunicação social agora dá ênfase ao assassino, como o fez recentemente, facto que é aproveitado por ele e pelos mentecaptos que o rodeiam, dando-lhe uma relevância e uma importância que os faz sentir mais fortes.

  • Li um texto seu na revista R:I e adorei a forma e o conteúdo do mesmo… Resolvi procurar o autor e dei de caras com este belo blog… Tive que o referir no meu blog… Parabéns e espero pelo próximo livro…
    Abraço

  • e isto num país que hipocritamente se afirma como não racista. na minha opinião este é precisamente o mais perigoso, o racismo encapotado por uma arrogância que só pode advir de uma profunda ignorância. os portugueses dizem que não são racistas mas para a generalidade da população o preto é estúpido e vive em barracas e se guia um BMW é porque das duas uma: ou o roubou o comprou-o com os lucros do tráfico.

  • Concordo em grande parte com o que aqui se transcreveu, no entanto parece-me que a imprensa terá tentado através da origem dizer que se tratava de um crime de índole racial sem no entanto proferir a palavra “preto”. Ou seja, quando se fala de crimes raciais o difícil é não ser criticado, porque se dizemos “de cor”, perguntam-nos porque não dizemos “preto”,”mulato”,”laranja”, se dizemos “preto” dizem que somos racistas, se dizemos de origem africana estamos a atenuar o cariz racial do crime…assim fica difícil, não fica?

    Isto não invalida o descrédito do jornalismo, porque em boa verdade tivemos acesso a informação inválida, tratava-se de um cidadão português e essa informação não foi veiculada. Não sei se por preconceito do jornalista (pode ou não ter sido), mas concerteza que foi um péssimo serviço jornalístico e é nestes termos objectivos que eu analiso este sucedido lamentável.
    A imprensa tem tido um papel negativo em matéria sensível como esta, o arrastão é o derradeiro exemplo, mais grave do que a desinformação foi o facto de a imprensa não querer desmontar essa desinformação. Sinais graves e sérios que parecem desaparecer na nebulosa da própria desinformação.

    P.S. E claro se morre um português, quem sabe se as mentes tugas não se sentem mais um bocado???

  • Gostei. Já cá tinha vindo, mas não tinha prestado atenção suficiente. Agora, posso dizer: gostei.

  • Camões é demasiado grande para representar Portugal; representa a Humanidade no seu melhor. Quantos homens, no século XVI, se lamentariam por uma mulher escrava não lhes corresponder na paixão (cf “Endechas a Bárbara Escrava”)?
    A propósito de escravo javanês, ou “jau” como então se dizia: alguns biógrafos do poeta suspeitam que não se tratava propriamente de um escravo, mas sim de um filho -mestiço, por certo- do próprio Camões.

  • Camões é demasiado grande para representar Portugal; representa a Humanidade no seu melhor. Quantos homens, no século XVI, se lamentariam por uma mulher escrava não lhes corresponder na paixão (cf “Endechas a Bárbara Escrava”)?
    A propósito de escravo javanês, ou “jau” como então se dizia: alguns biógrafos do poeta suspeitam que não se tratava propriamente de um escravo, mas sim de um filho -mestiço, por certo- do próprio Camões.

  • Infelizmente, procurei este blog pelas piores razões: parece que esses meninos (que para mim, são uma tentativa frustrada do Hitler, e digo frustrada porque, apesar de tudo, o Hitler era um génio, só que usou a sua genialidade para o mal!) decidiram então agora tomar conta das associações de estudantes tanto das universidades, como, IMAGINE-SE, dos liceus… Pobres crianças que, hoje em dia, não sabem metade da história do Mundo (conhecem Hitler como sendo aquele homenzinho de bigode pequeno ou que não fazem a mímina ideia do que foi o ultramar) que vão ser aliciadas por mentecaptos, por pessoas sem escrúpulos… Não tenho filhos, mas se os tivesse não ingressariam em nenhum universidade ou até mesmo liceu onde esta gente pudesse fazer parte de uma associação de estudantes..Pertenci à Faculdade de Letras até há bem pouco tempo, onde frequentei o curso de Estudos Africanos… A associação sempre teve partidos pelo meio (coisa que nunca concordei, pelas razões mais que óbvias), mas desta vez conseguiu-se superar com a participação ACTIVA do Partido Nacional Renovador… E, ao que parece, um dos membros da lista é exactamente “alguém” condenado pelo homicídio de Alcino Monteiro… Em boa hora saí de lá, mais não seja porque poderia ser chamada de “amiga de pretos” ou algo do género e sofrer represálias até mais não (já agora, o termo “pretos” é mais um indicador de racismo, porque se formos ver, é a raça negra e não a raça preta, mas isso já são opiniões e educação)… Sabe-se inclusive, de ameaças que esta gente já fez a alunos… EM QUE MUNDO VIVEMOS?? ISto não é gente, são animais que só não se deve fazer-lhes o que eles fazem aos outros porque seriamos como eles, mas só apetece atá-los a uma árvore e deitar-lhes o fogo!! E o que chateia também são aquelas pessoas que aderem só porque está na moda(imagine-se que até tenho conhecidos assim)!!! É triste, mas isto é típico do ser humano… são atitudes que ns vão (a nós, pessoas ditas normais!) perseguir a vida toda! E sim, neste momento vou passar a olhar por cima do ombro, não vá algum dos “nossos amigos” resolver fazer-me uma espera!

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